Opinião

Atrasado para jantar com o Soares

Atrasado para jantar com o Soares

Esta história passou-se há uns 20 anos, na casa dos meus tios em Francelos. Como estava bom tempo, comemos cá fora. No final do almoço, ao ver a minha tia Maria Luísa levantar a mesa, o meu tio Abílio pediu-lhe para trazer uma maçã, quando voltasse da cozinha. Ela trouxe--lhe uma laranja, que ele agradeceu e começou a descascar. Perguntei-lhe: "Pediste uma maçã, não foi?", ao que ele me respondeu que não. Mas ao ver a minha perplexidade (era capaz de jurar em tribunal que ele pedira uma maçã, não uma laranja), reconstituiu o episódio. Primeiro quis uma maçã, mas depois pediu a laranja - parte da conversa que não ouvi, distraído pelo meu filho Pedro, que deixara cair um copo ao chão.

Gosto de recordar esta historieta sempre que vem à conversa a questão da relatividade da verdade, como é o caso da carta "A epifania e Jorge Fiel", que Azeredo Lopes, chefe de gabinete do presidente da Câmara do Porto, escreveu a propósito da minha crónica intitulada "Rui Moreira, um elogio crítico".

A oportunidade de refletir sobre a subjetiva fragilidade da verdade foi a principal razão que me levou a tornar público este texto, que pensei para mandar por carta privada a Azeredo - que no seu comentário cita um parágrafo de outra crónica minha, publicada por ocasião das autárquicas. A esse propósito, aproveito para lhe dar razão e fazer mea culpa. Fui pateta em acreditar nas sondagens. Enganei-me. Peço desculpa.

Já não faço o mesmo relativamente à versão de Azeredo do nosso encontro na Alfândega, uma situação que me fez lembrar a técnica magistral usada por Paulo Castilho ("O outro lado do espelho" e "Fora de horas" são imperdíveis!) de contar a mesma cena, em diferentes capítulos, consoante é recordada pelas diferentes pessoas que a viveram.

Às vezes a verdade é mais complexa que a física quântica. Uma vez, estava à conversa com um amigo, que às tantas olhou para as horas, ficou aflito e despachou-me dizendo que tinha um jantar na Bolsa com o Mário Soares e já estava atrasado. Era verdade. Não era um jantar íntimo no Telégrafo, mas com centenas de pessoas, no Pátio das Nações.

Azeredo diz que eu estava na entrada da Alfândega à espera dele e queria conversa. É verdade. Quero sempre conversa e estava à espera dele e dos outros 249 convidados para a sessão comemorativa dos 125 anos do JN. Sobre o nó do problema, a nossa conversa, reafirmo que ele invocou a sua especialidade em Estratégia (cuja eu desconhecia) para me explicar que ter o JN como inimigo só favorecia a candidatura de Moreira (de que ele era o porta-voz), o que detonou a referida epifania de eu começar a juntar e perceber as peças soltas de um puzzle.

Lembro-me até, como se fosse hoje, de me perguntar onde é que ele teria ido beber essa sabedoria, se ao chefe de gabinete de Rui Rio (o meu prezado colega Manuel Teixeira, agora na TSF, notório adepto e praticante dessa estratégia) ou nalgum guru da comunicação que advoga a prática continuada de bullying sobre os jornalistas e jornais que não obedecem às suas ordens e se recusam a dispensar uma reverência acrítica e norte-coreana ao seu querido líder.