Opinião

Basta reler a História de Portugal

Basta reler a História de Portugal

Não é preciso voltar a inventar a roda. Basta pegar numa História de Portugal - não tem de ser a do Matoso, pode ser uma de bolso - ler os capítulos referentes à formação da nacionalidade e à reconquista cristã e seguir os exemplos de boa governação dados por reis da 1.ª dinastia, em particular Sancho I, que por uma virtuosa razão ficou conhecido como o Povoador. Mal foi reconhecido, em 1143, como rei de Portugal, logo Afonso Henriques tratou de alargar o território para onde podia e à espadeirada conquistou aos mouros Santarém, Lisboa, Évora, Beja, um esforço de guerra concluído por Afonso III com a tomada de Silves. Depois foi a vez da diplomacia. Em 1297, D. Dinis acordou em Alcanizes, com Fernando VII de Leão e Castela, as fronteiras entre os dois reinos, que mais Olivença menos Olivença ainda vigoram.

Estas façanhas guerreiras e diplomáticas fizeram de Portugal o Estado com as fronteiras mais antigas da Europa porque os nossos primeiros governantes eram sábios e percebiam que não bastava conquistar novas terras - era também preciso ocupá-las e povoá-las.

Para convencerem as gentes do Condado Portucalense a emigrar para o Sul e para as novas cidades do Interior (Guarda, Viseu, Covilhã, Viseu, Bragança), os reis seduziam-nos com atraentes isenções fiscais, maiores liberdades e privilégios. E para assegurar a fixação de população na perigosa raia, criaram os coutos de homiziados, terras onde os presos condenados por crimes que não a traição podiam viver em liberdade com as suas famílias, se se mudassem para lá.

A nação que se consolidou graças a hábeis políticas públicas de povoamento chegou ao séc. XXI completamente desequilibrada, com um Interior desertificado, onde se fecham escolas e ampliam cemitérios, por causa do catecismo centralista do Terreiro do Paço.

O distrito de Vila Real tem menos habitantes que o concelho de Gaia, perdeu 300 escolas em dez anos e vai perder cinco tribunais, bem como dez das 14 repartições de Finanças. Bragança tem menos habitantes que Matosinhos, perdeu 250 escolas em dez anos e vai perder cinco tribunais, bem como nove dos 12 serviços de finanças. O Governo deixou cair os apoios prometidos à ligação aérea de Trás--os-Montes a Lisboa - e o túnel do Marão continua parado.

Nove em cada dez portugueses vivem junto ao mar, uma situação dramática que as projeções demográficas indicam que se vai agravar: o Interior perderá mais 1/3 da sua população nos próximos 25 anos e chegará ao século XXII com uma densidade de deserto.

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As vagas nas três universidades (UTAD, UBI e Évora) e seis politécnicos (Beja, Bragança, Castelo Branco, Guarda, Portalegre e Viseu) do Interior são, todas juntas, inferiores às 9863 das grandes universidades de Lisboa. No Interior, nos últimos sete anos, fecharam 3481 escolas, 700 centros de saúde, nove maternidades e 16 urgências.

Não é preciso ser um Einstein para perceber que estes vergonhosos indicadores, que fazem de Portugal um bilhar que descai sempre para o mesmo buraco (Lisboa), têm de ser combatidos com políticas públicas que assegurem condições para a fixação e prosperidade das comunidades no Interior. Nada de muito original. Para saber como se repovoa o país basta reler os primeiros capítulos da História de Portugal.

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