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De Pai Natal para Pai Natal

De Pai Natal para Pai Natal

A nossa vida divide-se em três fases. Primeiro, acreditamos na existência do Pai Natal. Depois, já percebemos que não há lá em casa uma chaminé por onde possa descer um velho pançudo e de barbas, vestido de vermelho e com um saco às costas - mas fazemos de conta que acreditamos nessa patranha porque beneficiamos dela. Por fim, passamos a ser contribuintes líquidos para a manutenção do esquema. Estou nesta última fase há uma data de anos. Ou seja, sou o Pai Natal e sei que a esmagadora maioria das preclaras e preclaros leitores partilham essa minha condição.

Eu adoro dar. Não sou um Pai Natal forreta, ao contrário da Maria Cavaco e do Pedro Passos Coelho, que no ano passado, ainda a crise ia no adro e o pessoal tinha agasalhado o 13.º por inteiro, adoptaram medidas excessivas de contenção.

No Possolo, no Natal de 2010, os adultos (PR incluído) ficaram a seco. Só as criancinhas tiveram direito a prenda. Este miserabilismo natalício do casal Maria e Aníbal contaminou a Laura e o Pedro - após a consoada, em Massamá, só a mais nova das quatro filhas de Passos Coelho teve um presente para desembrulhar.

Vá lá que neste ano, Belém e S. Bento optaram por guardar de Conrado o prudente silêncio neste particular das prendas de Natal. Fizeram bem, porque mesmo sem sinais exagerados de pânico por parte de quem manda, estão a fechar em média cem lojas por dia, de acordo com a Confederação de Comércio e Serviços de Portugal.

Como o período do Natal representa metade da facturação anual para a maioria das lojas, não podemos ficar indiferentes ao impotente desespero de quem naufraga, fechando as portas do seu estabelecimento, com a praia à vista.

Nas voltas que dei pela Baixa, para investir a metade que sobrou do 13.º em prendas (no seu essencial livros, música, DVD e vinhos) impressionou-me o esforço de muitas lojas para se aguentarem, antecipando os saldos/reduções que tradicionalmente só faziam depois do Natal.

Vítor Bento avisou-nos de que um dos riscos da actual crise é as pessoas deixarem de gastar. "Isso seria muito mau", adverte o sério e reputado economista que em boa hora Cavaco escolheu para substituir Dias Loureiro no Conselho de Estado. Vai daí, apelo a todos os colegas pais e mães natais para que, na medida das suas possibilidades, continuem a demonstrar o afecto pelas pessoas que gostam, dando-lhes presentes.

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Não desperdicem, nem exagerem. Mas, por favor, não se intimidem. Não tenham medo de consumir - com moderação. Esta vida são dois dias e o primeiro está a acabar-se. E se não falarmos no entretanto, desde já vos desejo um óptimo Natal, deixando-vos, a título de prenda, um pedacinho do nosso Eça:

"As desgraças públicas nunca impedem que os cidadãos jantem com apetite: e misérias da pátria, enquanto não são tangíveis e não se apresentam sob a forma flamejante de obuses rebentando numa cidade sitiada, não tirarão jamais o sono ao patriota".

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