Opinião

De Homer Simpson a Zedu

De Homer Simpson a Zedu

Retardado, preguiçoso, ignorante, imbecil, imaturo, bebedor compulsivo de cerveja e um viciado em donuts, Homer Simpson é o exemplo mais que perfeito de um ser disfuncional. Mas um dia deu folga à sua irresponsabilidade e equipou o filho Bart com dois sábios conselhos para a vida: nunca se cansar de repetir a frase "Boa ideia, chefe!" e responder "Quando cá cheguei já era assim" sempre que inquirido por um superior a propósito de algo que está a correr mal.

Não me lembro de um único caso em que a administração competente de graxa não tenha facilitado a rápida progressão na carreira do engraxador. Há dois tipos de chefes: os que atingem o orgasmo quando lhe puxam o lustro e os que são um pouco menos sensíveis à lisonja, mas nem por isso deixam de abanar a cauda mal se lhes aplica uma boa dose de manteiga.

Mas a sabedoria dos conselhos de Homer atinge a excelência com a frase "Quando cá cheguei já era assim", um hino celestial à irresponsabilidade e desresponsabilização, a síntese feliz de uma doutrina doentia que se tornou a marca de água da nossa sociedade, contaminando-a a todos os níveis, da política às relações sociais e laborais, passando pela justiça.

Ando arrepiado com duas sentenças de tribunais - de Gaia e Coimbra, não na ficcional Springfield -, ditadas este mês e impregnadas da cultura da desresponsabilização, no seu estado mais pornograficamente puro.

Em Coimbra, após ter ficado provado que um gestor do Banco Privado cometera doze crimes de burla qualificada mais doze de falsificação, ele safou-se sem ter de ir para a cadeia, com apenas cinco anos de pena suspensa. Porquê a mão leve (e mais uma confirmação de que a maneira mais segura e eficaz de assaltar um banco é a partir da Administração)? A juíza explicou candidamente que atendeu ao facto do burlão ser "filho de uma boa família, de pessoas de bem".

Em Gaia, após ter ficado provado que a mãe afogou premeditadamente o filho nas águas do Douro, ela safou-se sem ter de ir para a cadeia, com apenas cinco anos de pena suspensa. Porquê a mão leve? Porque o tribunal considerou que quando matou o filho a mãe estava num "estado depressivo, perturbada psicologicamente e frágil no plano emocional".

Se calhar, foi ao saber destas sentenças que José Eduardo dos Santos decidiu congelar a tal parceria estratégica. É que Ângelo João, um angolano de 25 anos, que estudava Urbanismo com uma bolsa da Sonangol, foi condenado, pelo Tribunal de Sintra, a 18 anos de prisão efetiva por ser o cabecilha de um gangue que roubava cheques e vales postais.

A nossa justiça está seriamente descalibrada. Por que é que o tribunal de Sintra não despachou o angolano com cinco anos de pena suspensa? Pode não ser filho de boas famílias, mas tem a atenuante de ter nascido num clima de guerra civil, o que só o pode ter fragilizado emocionalmente ao ponto de ser incapaz de distinguir o bem do mal. Não acham?