Opinião

Malagueta no rabo do Constitucional

Malagueta no rabo do Constitucional

O presidente Mao perguntou a Deng Xiaoping e a Chu En-Lai como é que se leva um gato a morder uma malagueta. Chu disse: "É fácil. Segura-se nele, abre-se-lhe a boca e enfia-se a malagueta". Ao que Mao respondeu: "Não, isso seria obrigá-lo. Queremos que o gato morda a malagueta de sua livre vontade!".

"Envolve-se a malagueta numa deliciosa posta de peixe e antes mesmo de reparar o gato já está a mordê-la!", sugeriu Deng. Ao que Mao respondeu: "Não, isso seria uma intrujice. Queremos que o gato saiba que está a morder a malagueta!".

Chu e Deng desistiram e perguntaram ao camarada Mao: "Como é que tu fazes para convencer o gato a morder a malagueta?".

"É muito fácil. Mete-se a malagueta no rabo do gato. E ele não vai querer outra coisa senão mordê-la", explicou Mao Tsé-Tung.

Vem esta anedota a propósito do Orçamento para 2014 que acrescenta ao "enorme aumento de impostos" um tão colossal quanto inevitável corte na despesa do Estado com salários e pensões.

O aborrecido desta situação é que não podia ser de outra maneira, pois salários e prestações sociais representam 84% da despesa primária do Estado. Na verdade, estas medidas de corte estrutural na despesa chegam três anos atrasadas.

Até há bem pouco tempo, o Governo Passos tentou fazer o essencial do ajustamento do lado da receita, aumentando impostos até ao limite do suportável.

Quando se convenceu de que não conseguia tirar sangue das pedras, Passos ensaiou uma reforma do Estado que foi ao ar mal os seus primeiros e tímidos passos foram vetados pelo Tribunal Constitucional.

A maçada é que às vezes na vida só se pode escolher o inevitável e para cumprir o prometido à troika e tentar pôr o Estado a gastar em 2014 apenas mais 4% do que vai receber, o Governo não tem alternativa a cortar na despesa, que implicará cortar mais nos salários dos seus funcionários e piorar a vida dos pensionistas mais desafogados.

Compreensivelmente, pensionistas e funcionários do Estado não levam a bem mais estes sacrifícios, de que esperam ser salvos pelo providencial Tribunal Constitucional - a que, infelizmente, o milhão de de-sempregados ainda não arranjou maneira de recorrer para fugir do beco para que foi atirado.

À luz de argumentações passadas, as 40 horas, a convergência das pensões e o corte nos salários da Função Pública receberão chumbo grosso do Constitucional, produzindo um rombo tal no Orçamento que obrigará a um segundo resgate - que creio só será concedido se Sousa Ribeiro também assinar o novo memorando de entendimento, ou PS, PSD e CDS jurarem exterminar os empecilhos constitucionais à Reforma do Estado.

A tática de deixar esticar a corda até ao ponto máximo de tensão, para tirar daí dividendos, tornou-se um clássico. Foi por isso que me lembrei da história do camarada Mao. O Orçamento de 2014 é uma malagueta enfiada no rabo do Constitucional. Será que os juízes vão mesmo mordê-la?