Opinião

Os Dalton continuam à solta?

Os Dalton continuam à solta?

O enredo é fantástico. Tudo parece perdido para os assaltantes mascarados, liderados por Dalton Russell (Clive Owen), que estão cercados pela polícia no interior do Manhattan Trust Bank. O tempo joga contra eles, mas, estranhamente, não têm pressa. Empatam, com graça e requintes de malvadez, as conversações com Keith Frazier (Denzel Washington). O negociador do NYPD sente uma pulga atrás da orelha. Os seus receios de que algo de anormal se está a passar confirmam-se quando a polícia invade o banco e não descobre os ladrões. Misturaram-se com os reféns! Vão escapar sem castigo. Mas o produto do roubo? Deram-se a tanto trabalho porquê?

Não respondo para não estragar a surpresa a quem ainda não viu "Inside man", de Spike Lee, uma fita de 2006 que circula em Portugal com o infeliz título de "Infiltrado" e é o melhor filme de assaltos a bancos que vi em toda a minha vida.

Na vida real, Nélson de Sousa, o brasileiro morto a tiro, em 2008, por um "sniper" da PSP, quando tentava roubar umas centenas de euros do balcão do BES em Campolide, ainda estaria hoje vivo e a vibrar com a proteção que a N. S.ª de Caravaggio tem dispensado à canarinha, se tivesse visto "Inside man" e aprendido que no séc. XXI os bancos já não se assaltam de fora , como no "Bonnie & Clyde", mas a partir de dentro.

A melhor maneira para assaltar um banco é administrá-lo. O Conselho de Administração é o local de excelência para roubar um banco, como ficou magistralmente demonstrado nos casos BPN e Banco Privado. Assaltar um banco passou a ser um "inside job". Ainda há lugar para clãs familiares, contanto que especializados - e não quadrilhas de amadores, como os irmãos Dalton, celebrizados nas aventuras de Lucky Luke.

A lei do mais forte, em que o poder estava no cimo de um monte de notas, vigorou na Banca, com as conhecidas consequências funestas para os nossos depauperados bolsos de contribuintes martirizados, até à chegada de um xerife que começou a impor a lei e a ordem. Chama-se Carlos Costa, usa como armas a seriedade, competência e coragem - e tem poder.

Com a frieza e precisão de um sapador, o governador do Banco de Portugal desarmadilhou uma bomba prestes a explodir no nosso frágil sistema financeiro, instalando antivírus e construindo firewalls que protegem o BES e os seus clientes, de cancros a montante (o buraco de 1,2 mil milhões de euros na Espírito Santo International) e a jusante (os 5,7 mil milhões de euros que o BES Angola emprestou sem garantias).

É bom saber que a entidade supervisora está, de facto, a supervisionar, e que um apelido de família deixou de funcionar como uma bula papal que dispensa os seus membros de cumprir a lei e lhes permite abrir caminho com a delicadeza de um rinoceronte atacado de reumático. É bom saber que temos no Banco de Portugal um Lucky Luke que se impôs aos Dalton.

Mas ainda é cedo para Carlos Costa descansar e poder cavalgar no Jolly Jumper em direção ao pôr do sol. Temos de esperar pela assembleia-geral do BES de 31 de julho para saber de ciência certa se os Dalton continuam ou não à solta.