Opinião

Lá vai o comboio, lá vai a apitar

Lá vai o comboio, lá vai a apitar

Sou um fã incondicional do comboio, desde que em 1972, ainda adolescente, fiz o Inter Rail (com escalas em Londres, Bruxelas, Amesterdão, Hamburgo e Copenhaga), que me ajudou a abrir os olhos e começar a ter mundo. Nos oito anos deste século em que, devido aos malefícios do centralismo, estive emigrado em Lisboa, fiz sempre questão de manter o meu centro de gravidade no Porto, onde passava os fins de semana a descansar e divertir-me com a família e os amigos. Contam-se pelos dedos das mãos as vezes em que usei o carro para andar entre o Porto e Lisboa. Tinha um cheque-trem e andava sempre de comboio. Às sextas, deixava o Mini Clubman no parque de estacionamento da Gare do Oriente e apanhava o Alfa 127 das 17.00. Na segunda, estacionava a carrinha Fiat Marea nas Devesas e embarcava no Alfa 120 das 7.50.

Sobre o carro, o comboio tem a vantagem de respeitar mais o ambiente, ser mais barato e mais seguro. Ainda por cima, dá para aproveitar aquelas duas horas e meia a ler, trabalhar, ouvir música ou até dormir - o que evito, pois tenho vergonha de desatar a ressonar alto e incomodar os meus companheiros de viagem.

Como sou um fã do comboio, não posso deixar de aplaudir a aposta clara (apesar de tardia) na ferrovia constante do Programa Estratégico de Transportes e Infraestruturas, apesar de a leitura das linhas gerais do documento me suscitar uma dúvida, um reparo e uma esperança.

Duvido muito que a prometida conclusão da renovação da Linha do Norte resolva os problemas da coluna vertebral do nosso sistema ferroviário, cuja importância estratégica é documentada pelo facto de 6,7 milhões de pessoas viverem a 35 km ou menos de distância de uma das suas estações principais.

Os 1,3 mil milhões de euros até agora enterrados na modernização da Linha do Norte pouco adiantaram, ao ponto de serem considerados o maior disparate que viu em toda a sua vida profissional por Brito Santos, um especialista em ferrovia que percorreu a pé, durante três meses, os 336 km da linha para identificar os estrangulamentos.

Usada diariamente por 600 comboios, urbanos, de mercadorias, regionais, intercidades e alfas, com cinco tráfegos contraditórios, a Linha do Norte, velha de 163 anos, está completa e irremediavelmente entupida. A coisa não vai lá com mais remendos, conta quem sabe. É preciso fazer uma linha nova. Mais nada!

A prioridade à produção e à exportação faz todo o sentido e materializa-se no facto de os dois mais vultuosos investimentos serem nos corredores ferroviários Sines-Badajoz e Aveiro-Salamanca. É preciso tirar combustível e mercadorias das estradas. O transporte rodoviário tem de cair e o ferroviário de aumentar, não só em mercadorias, mas também em pessoas, e foi preciso ser Bruxelas a alertar Lisboa para isso.

Os investimentos em sistemas de transportes de passageiros só entraram no Plano Estratégico por pressão da Comissão Europeia, o que explica o atabalhoamento do programa neste capítulo, onde figuram 160 milhões para a Linha de Cascais, 15 milhões para o Metro de Lisboa e 580 milhões ainda sem destino, que estão no mapa a pedido de Bruxelas. Espero bem que os autarcas da Área Metropolitana do Porto estejam atentos e a produzir projetos comuns candidatos a este dinheiro que está aí disponível, à espera de quem lhe dê bom uso.