Opinião

Ninguém está a reparar no mau cheiro?

Ninguém está a reparar no mau cheiro?

A minha filha Mariana casou com um americano. Antes de darem o nó e irem viver para Los Angeles, o Tom veio cá algumas vezes. Numa delas, foram por aí abaixo até Fátima, num Corsa alugado, para cumprirem uma promessa feita à mãe dele, que é de origem colombiana e muito católica. Quando iam a passar em Cacia, o Tom não disse nada, mas olhou para a Mariana com um ar tão espantado e horrorizado que ela teve de protestar a inocência das suas entranhas e atribuir à fábrica de celulose a responsabilidade por aquele cheiro fétido. Mas foi só na viagem de regresso, quando o mesmo mau cheiro voltou a invadir o carro no mesmo local, que ele ficou convencido - e presumo que aliviado.

Aqui há uns anos, numa visita, que meteu almoço, à Portucel de Cacia, não resisti a fazer a pergunta óbvia, e recebi a resposta não menos óbvia de que ao fim de que algum tempo se adquire uma total insensibilidade ao cheiro. Esta insensibilidade ao fedor tem, neste caso, o lado bom de poupar o pessoal da fábrica ao inferno de trabalhar num sítio malcheiroso (o cheiro está lá, mas eles não o sentem), mas tem um lado péssimo quando se aplica a todos nós, cidadãos, e está em causa a corrupção de políticos e militares, em assuntos tão nauseabundos, como o da compra, por mil milhões, de dois submarinos a um consórcio alemão liderado pela Ferrostaal.

Recapitulando e resumindo. No caso dos submarinos, os alemães provaram que houve corrupção, condenaram os corruptores e puniram a empresa com uma multa de 140 milhões de euros. Os gregos provaram que houve corrompidos e mandaram um ex-ministro para a prisão. Em Portugal? Cá não se passa nada, os dez arguidos do processo das contrapartidas foram ilibados e o relatório da comissão de inquérito, que é hoje votado no Parlamento, não conseguiu descortinar qualquer ilegalidade no processo.

Sou surdo de uma das narinas (tenho o septo nasal torto), mas apesar disso sinto que neste processo há uma data de coisas que não cheiram bem - e não estou só a falar dos 1,6 milhões de euros que o cônsul em Munique Jurgen Adolf recebeu da Ferrostaal para ajudar a vender os submarinos.

Durão Barroso, o primeiro-ministro do Governo que afundou mil milhões de euros na compra dos submarinos (e que nomeou o cônsul Adolf...), jura que nunca se encontrou com responsáveis da Ferrostaal, mas um dos administradores condenados na Alemanha garante que almoçou com ele na Baviera. Paulo Portas, o ministro da Defesa que assinou o contrato, afirma que nunca se reuniu com Hans-Dieter Mühlenbeck, mas este dirigente da Ferrostaal garante que se encontrou com ele na Fortaleza do Guincho.

O contra-almirante Rogério d"Oliveira jura que o milhão de euros que a Ferrostaal lhe depositou numa conta da UBS na Suíça são o pagamento de serviços de consultadoria. E já só cá faltavam os Espírito Santo, que nunca falham uma. A Escom recebeu a título de consultadoria (numa futura reencarnação quero ser consultor) recebeu 30 milhões de euros, que andaram a viajar pelas Ilhas Caimão, Bahamas, Suíça e Dubai. Os três administradores da Escom ficaram com 15, Ricardo Salgado distribuiu um milhão por cada um dos ramos da família, e quando interrogado sobre o destino dos restante dez milhões em falta, denunciou a existência de um sexto elemento: "Essa parte teve de ser entregue a alguém num determinado dia".

Não sei se hei de rir ou chorar com a insensibilidade da Justiça e da maioria parlamentar ao mau cheiro nauseabundo que exala do negócio dos submarinos. Mas quanto mais sei disto, mais vergonha tenho de ser português.