Opinião

O elogio dos economistas manetas

O elogio dos economistas manetas

Cheio de dúvidas sobre qual seria a mais acertada decisão a tomar em matéria económica de grande impacto no dia a dia dos seus compatriotas, o presidente Truman pediu ao chefe de gabinete que chamasse à Casa Branca três economistas prestigiados e habilitados a aconselhá-lo no delicado assunto em causa. No final do ciclo de conversas, mal acabou de se despedir do terceiro economista, Truman ordenou ao chefe de gabinete que lhe arranjasse um economista maneta. E, para desfazer o espanto estampado na cara do colaborador, acrescentou que dava como perdido o tempo passado com gente medrosa, que não ousava arriscar apontando o caminho que achavam que ele deveria seguir e fundamentar o conselho com argumentos claros.

Em vez de se comprometerem com uma opinião, os três economistas preferiram esconder-se atrás da cobarde formulação "on this hand this, but in the other hand that", que em Português se diz "por um lado isto, mas por outro lado aquilo".

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Achei tanta graça a este episódio do economista maneta que até lhe atribuo a responsabilidade por, quando comecei a fazer a coluna do Sobe e Desce do caderno de Economia do "Expresso", ter ignorado um sábio conselho do meu colega e amigo João Carreira Bom.

Veterano de idêntica rubrica no Primeiro Caderno e escaldado como estava dos dissabores acarretados pela sua mania de ser um opinador maneta, irreverente e pouco respeitador dos poderes instituídos, o bom do João resolvera aparar as unhas e inventou um curioso sistema para não lhe estragarem os sábados, domingos e segundas-feiras.

O sistema desarmava pela sua simplicidade. Era como uma tripla no totobola. Dizia mal das pessoas que punha com a seta para cima e elogiava as que punha a descer. Assim, quando lhe telefonavam a protestar, ele calava os contestatários, respondendo "Sim, é verdade, pu-lo com a seta para baixo, mas como deve ter reparado dediquei-lhe palavras bem simpáticas" ou que sim, o tinha criticado, mas tivera o cuidado de o pôr a subir, com a seta para cima.

O enorme respeito que devo a quem me elogia concedendo-me parte do seu tempo e atenção (bens cada vez mais escassos e que valem mais que dinheiro) obriga-me a não medir as palavras que escrevo em função dos meus interesses pessoais e particulares - ou até, eventualmente, os dos acionistas da empresa que me paga. Para mim, em primeiro, segundo e terceiro lugares está sempre o cliente, que é o leitor.

Não sou ingénuo ao ponto de pensar que se pode atravessar a vida como se ela fosse uma Scut, sem que um cronista maneta e desalinhado, com a mania de emitir opiniões tão livremente como se estivesse a conversar com os amigos à mesa do café ou no fim de uma jantarada, não tenha de pagar portagem e até de de vez em quando liquidar multas severas por não estar protegido por uma Via Verde e ter passado distraído debaixo de um pórtico sem pagar.

Mas sou ingénuo ao ponto de sentir que me estou a ver ao espelho no episódio do economista maneta e numa das mais belas citações de Gandhi: "Primeiro, eles ignoram-te. Depois, riem-se de ti. Depois, combatem-te. Finalmente, tu vences". Sou tão tolo e vaidoso que às vezes até me imagino na terceira fase, a de ser combatido. Se calhar tenho de me tratar.

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