Opinião

O passageiro das barbatanas

O passageiro das barbatanas

O passageiro apresentou-se na porta de embarque com um par de barbatanas numa mão e a mala na outra. Não era preciso ser um Einstein para adivinhar que ia ter problemas. A Ryanair é bastante rigorosa e não perdoa. O preço do bilhete apenas habilita o viajante a transportar uma bagagem com tamanho (55 x 40 x 20 cm) e peso máximos (dez quilos) previamente definidos. Qualquer artigo extra ou é recusado ou vai para o porão mediante o pagamento de 60 euros.

Colocado perante o trilema de pagar 60 euros, ficar sem as barbatanas ou metê-las na mala, o passageiro debalde tentou ganhar a simpatia das meninas da Ryanair para a sua causa, alegando que elas não cabiam na mala.

Quando o pessoal que estava na bicha pensou que ele estava encurralado num dilema (pagar ou ficar sem as barbatanas), o passageiro sentou--se no chão, descalçou-se, abriu a mala, meteu os sapatos lá dentro, calçou as barbatanas, pôs-se de pé e apresentou o cartão de embarque às meninas da Ryanair, que despidas de argumentos não tiveram outro remédio senão deixá-lo ir por ali fora a caminhar até ao avião com um andar ridículo de pato bêbado - mas com as barbatanas e sem pagar os 60 euros.

Não sei se esta história já chegou aos ouvidos do Michael O'Leary. Se chegou, podem estar certos de que não demorará muito tempo até nas letras pequeninas do contrato de compra do bilhete passar a figurar a proibição dos passageiros voarem calçados com barbatanas, vestidos com mais de três camadas de roupa e assim por diante.

Mas tenho a certeza de que quando lhe contarem o episódio, o genial inventor do modelo low-cost vai rir--se a bandeiras despregadas - e tirar o chapéu ao rasgo imaginativo do passageiro. Outra coisa não será de esperar de quem se prepara para cobrar um euro pelo acesso à casa de banho dos aviões, não com o objetivo de encaixar essa receita (que prometeu será integralmente doada à investigação científica da incontinência urinária), mas para dissuadir a procura e assim poder acabar com uma das casas de banho e ganhar mais seis lugares para vender.

Quem me contou o desconcertante caso do passageiro das barbatanas foi a empregada do Portugalidades, uma das lojas do free shop do aeroporto Sá Carneiro, que me deixou alarmado com o ponto final que pôs na nossa conversa - "Era histórias destas que se deviam contar no Facebook" -, pois aqui há uns dez anos ela muito provavelmente teria dito que era histórias destas que se deviam contar nos jornais.

Tomei logo ali a decisão de contar esta história no nosso JN, acompanhada de um pedacinho de ouro roubado ao Einstein - "a lógica consegue fazer-nos ir do ponto A ao ponto B, mas a imaginação leva-nos a qualquer lado" - e da recomendação a todos para não terem medo de desafogar a criatividade que têm reprimida dentro de vós. Soltem-se!

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