Opinião

O Rui precisa de mudar de óculos

O Rui precisa de mudar de óculos

Andava meio perdido na Madeleine, a tentar ir à Ferme Saint-Hubert (uma queijaria magnífica que no entretanto se mudou junto à Gare de l'Est), até que desisti e fui ao bolso das calças procurar a ajuda do mapa de Paris para descobrir o caminho para a rue de Vignon. Tinha 50 anos e foi nesse momento triste que percebi que os meus olhos cansados já não conseguiam ler as letras pequeninas do mapa.

A partir desse dia, os óculos de leitura fazem parte do meu equipamento diário. São tão indispensáveis como o telemóvel. Posso sair de casa sem relógio ou até esquecer-me da carteira. Mas se a meio do caminho der conta de que não trouxe os óculos, volto atrás a buscá-los.

É aborrecido, mas uma pessoa habitua-se. Ao longe, ainda vejo bem, o que me poupa a situações embaraçosas como as vividas por Francisco Balsemão que já por mais de uma vez esteve quase quase a beijar em público o Zé Castelo Branco, julgando tratar-se da sua velha amiga Graça Lobo.

Quando os olhos nos pregam partidas e/ou já não são capazes de decifrar as letras miudinhas, o melhor que temos a fazer é procurar o conselho de especialistas (no caso, os oftalmologistas).

Como diz o povo, na sua imensa sabedoria, o pior cego é aquele que não quer ver, e ninguém está livre de cair nesta desagradável situação (a de não querer ver) - até gente muito mais bem intencionada, capaz e inteligente do que eu, como, por exemplo, o presidente da Câmara do Porto.

No "Ensaio sobre a cegueira", Saramago deixou-nos um sábio conselho que me esforço por seguir: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara".

Olhando para o corpo do Porto, com 1/3 das casas a caírem de podre, e para a sua alma ferida, vejo que muito provavelmente Rui Rio tem tanto jeito para ser autarca como eu para ser piloto de Fórmula 1 (aviso já que sou um nabo a conduzir, pelo que não vale a pena convidarem-me para entrar na corrida VIP do próximo Circuito da Boavista).

Vendo, reparo que Rui se revela um político de primeira água em matérias como a vitimização (aprecie-se o seu extraordinário desempenho na novela SRU) ou a habilidade em inventar inimigos (F. C. Porto e Comunicação Social) contra os quais cultiva guerras em seu benefício.

Mas reparando, constato que há situações em que o Rui fica cego, como naquela cena esdrúxula do feriado do S. João em que fez a figura do condutor que entrou na autoestrada em sentido contrário e teima que são todos os outros automobilistas que seguem em contramão.

Ainda e sempre, hoje mais do que ontem e menos do que amanhã, é preciso ter visão estratégica e não se deixar cegar por ajustes de contas mesquinhos, como o Rui, que pode estar a comprometer o futuro no partido ao aparecer como o manipulador da candidatura de Rui Moreira com o objetivo de barrar o caminho ao seu arquirrival Menezes.

Para ver bem a realidade que o rodeia, e evitar beijar o Castelo Branco convencido de que ele é a Graça Lobo, o Rui está mesmo a precisar de mudar de óculos.

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