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Opinião

Para uma etiqueta do telemóvel

Para uma etiqueta do telemóvel

Como sou tímido, não gosto de falar ao telefone e por isso sempre restringi o seu uso a chamadas rápidas para dar um recado, marcar um encontro, esclarecer uma dúvida ou obter uma curta declaração. Nunca fui de grandes namoros ao telefone.

Não admira, portanto, que seja fã das SMS, um dos mais úteis efeitos secundários e colaterais da grande revolução que a invenção do telemóvel operou nas nossas vidas. Mas claro que me arrepia o comportamento doentio dos adolescentes, que esgotam em cinco dias pacotes de 1500 SMS gratuitas por semana.

É aterrador vê-los a darem aos polegares enquanto andam, comem, bebem e suponho que até quando tal e coisa, pois de acordo com um estudo de um grupo de investigadores do Técnico, 15% dos jovens portugueses já interromperam uma relação sexual para atender o telemóvel - e 1/3 preferiu o telemóvel se tivesse de escolher entre ele e sexo. Valha-nos Deus!...

Imagino que um dia, espero que mais cedo do que mais tarde, um equipa interdisciplinar, de psicólogos, sociólogos, linguistas e antropólogos, usará essas comunicações como matéria-prima para chegar a conclusões que calculo serão surpreendentes e reveladoras sobre o admirável mundo em que vivemos.

Apesar de ser do tempo em que o telefone só dava para fazer e receber chamadas, estava preso à parede por um fio e era precisar aguardar meses para nos instalarem um em casa, sou um fã incondicional do telemóvel, que na sua versão esperta dá 30 a zero ao canivete suíço no capítulo da multifuncionalidade.

O meu iPhone serve de lanterna quando entro da sala escura do cinema, tornou obsoleto o filofax que me servia de agenda e lista telefónica, faz as vezes de GPS, gravador, máquina fotográfica e despertador, permite estar atento aos mails, saber as horas, ir ao Google e até substitui os sábios mas volumosos dicionários em papel da Porto Editora.

Hoje em dia, fazer e receber chamadas é uma das valências menores do smartphone, o que não me incomoda nada, até porque, como comecei por explicar, sou tímido e por isso não me agrada falar ao telefone.

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Apesar de tímido e de não ser uma nativo digital, confesso sentir alguns sintomas, ainda que ligeiros, de nomofobia, a doença que vitima os dependentes de telemóvel. Se me esqueci em casa da carteira, com o dinheiro e cartões, o mais provável é não dar meia volta. Mas já me aconteceu seguir na A1 e perto da área de serviço de Leiria dar conta de que não trouxe o telemóvel, fazer mentalmente o balanço dos prós e os contras e concluir que o melhor que tinha a fazer era regressar ao Porto para o ir buscar.

Dito isto, é urgente estabelecer uma etiqueta, um conjunto de regras do bom uso do telemóvel. Através da repressão, as polícias, que multam diariamente 150 condutores apanhados a falar ao telemóvel, estão a contribuir para isso.

Mas é preciso ir mais longe, principalmente quando 60% dos estudantes têm os telemóveis ligados nas aulas, o que nos traz à memória o triste episódio da miúda de 15 anos do "Carolina" que agrediu a professora que lhe apreendera o telemóvel. Mandar SMS durante as refeições, falar ao telemóvel enquanto se conduz ou fazer chamadas de número anónimo é tão mal educado como cuspir no chão, dar traques em público ou arrotar à mesa.

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