Opinião

Parem de chorar baba e ranho

Parem de chorar baba e ranho

Há poucas coisas tão irritantes como o choro de um bebé. Normalmente eles berram por uma de cinco razões. 1. Têm fome e querem mama; 2. Reivindicam uma mudança de fralda, pois estão com recheio; 3. Estão com mimo e por isso só se calam se lhes dermos atenção; 4. Apesar de terem sono, estão com dificuldade em adormecer, pelo que exigem colo; 5. Estão com dores, o que é tramado, pois é muito difícil fazer o diagnóstico (nem sempre são gases) e antes de corrermos com eles para o médico temos primeiro de despistar as quatro causas anteriores.

Quando os bebés aprendem a falar, a coisa simplifica-se e cai a pique a nossa tolerância a birras e ataques de choro. Para nosso bem, presente e futuro, impõe-se aproveitar logo o momento para tornar claro às pequenas criaturas (que têm tanto de adorável como de manhoso) que os berros deixaram de ser eficazes e o melhor é espremerem as meninges e arranjarem outra maneira de levarem a água ao seu moinho.

Não quero com isto dizer que mal começamos a falar ficamos automaticamente impedidos de chorar, quando estamos tristes, ou de berrar, quando sofremos uma dor aguda e inesperada. Temos é de evitar abusar dessas manifestações, até porque se as banalizarmos elas perdem a sua eficácia, como é demonstrado pela fábula de Pedro e o Lobo.

Estas regras básicas de conduta, para crianças e adultos, em família e sociedade, também são boas para as relações laborais, como bem notou o secretário-geral da UGT, Carlos Silva, ao avisar que não é com greves todos os dias que se resolvem os problemas dos trabalhadores. Se a greve fosse um remédio santo para acabar com o desemprego, a desigualdade e os cortes nos apoios sociais, a Grécia, com as suas 23 greves gerais num ano, já seria o paraíso dos trabalhadores.

Tenho muita pena que os dirigentes sindicais das empresas públicas de transportes (crivadas de dívidas), e a generalidade dos trabalhadores deste setor (com regalias acima da média) ainda não tenham percebido que deixou de ser eficaz estarem sempre a chorar baba e ranho. No passado, deu resultado tomar os utentes como reféns para chantagear governos preocupados em manter os eleitores satisfeitos. Agora, apesar de estarmos a entrar num ciclo eleitoral (europeias este ano, legislativas em 2015, presidenciais em 2016), a margem de manobra para distribuir benesses é curta, pois os credores estão vigilantes.

Desde que a troika chegou, houve mais de 500 dias de greve nos transportes públicos. Ao teimarem nesta banalização da greve, os trabalhadores do setor estão a agir como bebés que dão com a cabeça nas paredes ou adolescentes que se automutilam, infligindo dor a si próprios, na vã esperança de castigarem os pais com este comportamento masoquista. Melhor fariam se aprendessem com as palavras sábias de Carlos Silva e a atitude adulta dos seus colegas do metro do Porto, que não fizeram uma única greve em 11 anos de vida da empresa.

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