Opinião

Rui Moreira, um elogio crítico

Rui Moreira, um elogio crítico

A princípio, não percebi por que raio é que o Rui Moreira se deu ao trabalho de ir até à capital para dar ao "Correio da Manhã" a entrevista que oficializava o que já toda a gente suspeitava. Caramba!, ele era uma pessoa da casa, que livre e semanalmente arejava as opiniões no JN. Não havia necessidade de se dar à maçada de ir a Lisboa para anunciar que era candidato ao Porto.

Bastava-lhe dizer uma só palavra e nós íamos logo entrevistá-lo, à casa da Av. Boavista, ao escritório do palacete onde nasceu, na Av. Montevideu, ou até mesmo ao seu gabinete da Associação Comercial, no Palácio da Bolsa. Não compreendi, até porque já lhe tínhamos pedido essa entrevista. Só se fez luz na minha pobre cabeça quando tropecei no Azeredo Lopes (o porta-voz de Moreira), à entrada da Alfândega (que o candidato prometeu ligar ao Palácio de Cristal por tapetes rolantes), e ele explicou-me tudo muito direitinho. Por uma questão de estratégia, era conveniente para a candidatura ter o JN como inimigo. E a subida nas sondagens provava a justeza desta curiosa tese. Daí que fôssemos publicamente acusados de favorecer Menezes - cujo, em privado, se lamentava de favorecer Moreira, fundamentando a alegação na medição do espaço dedicado às duas candidaturas...

Foi uma epifania. Percebi logo que quando o pessoal de Moreira escrevia que o JN não era confiável, não era porque acreditasse nisso, mas apenas porque lhe dava jeito. Por isso, não fui apanhado de surpresa quando o Rui Moreira (não o presidente da CM do Porto, como o próprio esclarece num sábio e oportuno desdobramento de personalidade) apareceu a abrilhantar a edição dominical do nosso prezado concorrente lisboeta. É tática! E o Rui é um mestre da tática.

Neste ano que leva como presidente da Câmara, Moreira e o seu pessoal adotaram uma atitude de distanciamento face ao único jornal da cidade. Fizeram bem. Se estabelecessem uma relação íntima com o JN, poderíamos cair na tentação de fazer vista grossa a atos ou omissões carentes de crítica. Esta distância (que não a discriminação) é saudável para os dois lados. Para nós, porque dormir na cama do poder é um pecado capital. Para ele, porque perderia em escrutínio e crítica, essenciais a uma boa governação da cidade.

Um ano volvido, a cidade continua a respirar esperança - e esse é o melhor elogio que se pode fazer a Rui Moreira. Pelo caminho, perdeu Daniel Bessa e Bárbara Taborda, mas ganhou calo com as trapalhadas da auditoria ao fundo do BES/Aleixo e do "tira não tira" os pelouros a Sarmento Pimentel. Ainda não conseguiu cumprir as promessas de resolver o Bolhão e pôr de pé o Fundo de Solidariedade Social. Mas trouxe-nos de volta a Feira do Livro, deu gás à cultura e dotou a cidade de uma imagem moderna e arrojada. Nas propostas da Liga das Cidades do Norte e da Frente Atlântica, nota-se o esforço meritório de tentar encontrar um caminho, que, é óbvio, ainda não achou.

Um ano volvido, gostaria que ele tivesse reabilitado o elevador da Ponte da Arrábida e posto a andar o elevador entre a Restauração e o Palácio. E adoraria se já estivesse em marcha um plano de investimento em transportes públicos, que alargasse a rede do metro e elétrico. A ideia de levar o elétrico ao terminal de cruzeiros é sedutora, mas temos de pensar em grande e aproveitar a massa do QREN 2020.