Opinião

Será que o cérebro tem sexo?

Será que o cérebro tem sexo?

Enquanto um tipo que se vangloria de "se fartar de comer gajas" continuar a ser socialmente admirado e invejado pelos seus pares, e uma mulher que partilhe desse gosto pela promiscuidade continuar a ser olhada de lado e depreciativamente classificada de puta ou galdéria, estamos conversados sobre a igualdade entre os géneros no nosso país. O panorama é confrangedor. Há mais 350 mil mulheres que homens, mas elas apenas ocupam 27% dos lugares no Parlamento e uma única presidência das distritais do PS e do PSD. Apesar de haver mais mulheres (709 mil) do que homens (498 mil) com ensino superior, somos o país europeu com menos mulheres nas administrações, apenas 5%, a anos-luz da Noruega, que já atingiu os 40% que são o objetivo que os 28 membros da União se comprometeram a atingir até 2020.

O cérebro tem sexo? A resposta a esta pergunta divide a comunidade científica, mas multinacionais como a HP, Yahoo!, PepsiCo e General Motors serem comandadas por mulheres já chega para ilustrar o triste anacronismo em que ainda vivemos. As portuguesas são mais escolarizadas, trabalham mais horas, são mais mal remuneradas e têm menos oportunidades. Ao longo de 127 anos, o JN nunca foi dirigido por uma mulher. E o Governo apenas foi chefiado por uma mulher, Maria de Lurdes Pintasilgo, durante escasso meio ano.

A desigualdade no mercado de trabalho é gritante. As mulheres ganham menos 20% que os homens e ainda gastam 18 horas por semana em tarefas domésticas, mais do triplo do tempo que os maridos. Como se isso não bastasse, o desemprego é recorrentemente mais alto entre as mulheres (14,3%) do que nos homens (13,5%).

A igreja não ajuda a mudar este estado de coisas, ao discriminar as mulheres, proibindo-lhes o acesso ao sacerdócio, e ao albergar luminárias como o cardeal Monteiro de Castro, que acha que o lugar das mulheres é em casa. É esta mentalidade retrógrada e machista que leva homens a matar as mulheres por ciúmes, porque não puseram comida na mesa a horas, ou a desfigurarem-nas, para que mais ninguém as queira e olhe para elas. É por essas e por outras, que Portugal não para de cair no ranking sobre a igualdade de géneros do Fórum Económico Mundial. Em 2006, estávamos em 33.o, entre 136 países. O ano passado já íamos em 51.o.

Sensível a este drama, Passos Coelho fez aprovar no Conselho de Ministros, em fevereiro de 2012, uma resolução que obriga as empresas do Estado a terem mulheres nos órgãos sociais. A bondade da medida é inquestionável, já quanto à eficácia...

Agora, que aparentemente sobreviveu ao caso Tecnoforma dando explicações que só convencem quem quer ser convencido, Passos Coelho poderia recuperar a imagem de político sério, que é remediado e vive em Massamá, se começasse a preparar a saída e deixasse no seu lugar, no Governo e no partido, Maria Luís Albuquerque. Seria uma saída em beleza. Demonstrava que não está apegado ao poder, emprestava um novo fôlego ao PSD para as legislativas 2015 e dava um inestimável contributo à mudança de mentalidades e à causa da igualdade entre mulheres e homens. Um três em um.