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Sosseguem, os jornais não vão acabar

Sosseguem, os jornais não vão acabar

De vez em quando tenho boas ideias. Como quando, há oito anos, uma arritmia me obrigou a passar três dias no Hospital de Santa Marta. Mal voltei ao trabalho, no edifício da Impresa, em Paços de Arcos, vi logo que ia ser um inferno. Toda a gente - uns preocupados, outros desejosos de me ver pelas costas - queria saber o que me tinha acontecido. Além de ser uma perda de tempo, é muito chato estar a repetir dezenas de vezes a mesma história. O que me valeu foi pensar e agir rápido. Resumi o sucedido em 600 palavras, imprimi 50 exemplares em folhas A4, que dobrei em quatro e meti no bolso do casaco. Mal alguém me perguntava o que se passara, eu dava-lhe logo um exemplar do meu relatório. Foi um sucesso.

Como não tenho tantas boas ideias como desejaria, repito as poucas que vou tendo, pelo que não me levem a mal aproveitar este espaço para responder a todos os amigos e conhecidos que perguntam sobre o futuro dos jornais.

Os jornais começaram com um modelo de negócio simples e vida fácil. Vendiam notícias aos leitores e leitores aos anunciantes. A coisa complicou-se quando a rádio apareceu e acabou com o exclusivo que eles tinham na divulgação das novidades, com a agravante de ser gratuita (após a compra do aparelho) e bastante mais rápida. A rádio foi um concorrente sexy, mas os jornais souberam adaptar-se.

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O grau de dificuldade aumentou com a chegada da televisão, quase tão rápida como a rádio e com imagens a mexer. E ainda por cima quase de borla (bastava comprar o televisor e pagar a taxa). A caixa mudou o Mundo mas não acabou com a rádio e os jornais, que souberam adaptar-se a um poderoso concorrente, que acabou por se render ao modelo de negócio dos jornais (agora quase todos pagamos para ver televisão).

Depois veio a Internet, a 8.ª maravilha do Mundo, que mudou as nossas vidas e a que todos os média tradicionais se renderam, sem parar para pensar, e, com medo de perder o comboio do futuro, cometeram o pecado original de oferecer grátis uma coisa que custa dinheiro (informação) - o equivalente a os taxistas passarem a dar boleia aos clientes em vez de lhes cobrar pela viagem.

O passado projeta-se no futuro. Os jornais sempre souberam adaptar-se à mudança. Agora está a ser mais difícil, devido à míngua de tempo. A rádio levou 38 anos a chegar a 50 milhões de pessoas. Para terem esta audiência, a televisão só precisou de 13 anos, a Internet de quatro e o Facebook de dois.

Os jornais não vão acabar, porque os leitores precisam de quem os ajude a navegar no meio deste vendaval de (des)informação - 600 tweets por segundo, sete mil milhões de SMS por dia e 31 biliões de consultas mensais ao Google -, os leitores precisam de quem os ajude a distinguir o trigo do joio, a detetar tendências e explicar o que se passa.

Para não se afogarem, os jornais têm de parar de esbracejar, apostar na credibilidade do seu jornalismo e definir um rumo. Não há ventos favoráveis quando não se sabe para que porto vamos. Os jornais não vão acabar, e a prova dos nove disso é a música, onde coexistem vinil e gira-discos, os CD e os seus leitores, cópias e partilhas ilegais, downloads legais e Spotify. O centro de gravidade do negócio passou da venda de música para os concertos e o merchandising. Mas a indústria prospera. Alive and kicking.

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