Opinião

E nem uma semana passou

E nem uma semana passou

Passos Coelho já teve os seus primeiros confrontos com a realidade desde que José Sócrates se demitiu, ainda não há uma semana. E não terá sido fácil. Sem dificuldade, terá feito compromisso junto de Angela Merkel de que honrará, se formar Governo, as obrigações do Estado português, nomeadamente baixando o défice para os planos acordados. Mas não terá sido com facilidade que o PSD, no curto espaço de 12 horas, passou de ser contra o aumento dos impostos para colocar a eventualidade de aumentar o IVA. Esse foi o primeiro duro embate com a realidade. E o segundo terá ocorrido em Belém, quando Cavaco terá feito saber ao líder do PSD que não é altura de pedir uma auditoria às contas do Estado, coisa que Durão Barroso fez ao suceder a Guterres, que Sócrates fez depois de Santana Lopes perder o lugar e que o PSD anunciou que faria mal chegasse ao Governo. Não fará. Se se der a eventualidade de algo estar a correr mal, essa seria uma razão acrescida para o FMI entrar, mas essa seria sobretudo uma machadada duríssima na credibilidade europeia, já que Bruxelas acompanha as contas dos Estados membros, ainda que isso de pouco lhe tenha valido no caso da Grécia. Portanto, não há que enganar: as contas estão certas, e o assunto encerrado. Lá se foi o que poderia ser uma tecla a bater durante a campanha eleitoral.

A acusação de que o Governo fazia o que Merkel lhe impunha, ouvida várias vezes da boca da Oposição, incluindo de dirigentes do PSD, vira-se agora contra o candidato a primeiro-ministro. Passos Coelho terá pouca margem de manobra se e quando chegar ao Governo. Os compromissos do Estado português deixam a qualquer Governo do país pouca margem até à imaginação. Chegou a hora de pagarmos, como tantas vezes se disse, e as opções para pôr ordem nas contas públicas são poucas ou nenhumas. Entre congelar pensões que nem aos 200 euros chegam ou aumentar o IVA sobrecarregando praticamente todo o consumo a moral e a ética aconselharão que se sacrifique quem consome, ainda que isso vá travar o crescimento económico do país.

PCP e BE esfregarão as mãos de contentes. Não se sentem obrigados a ter alternativas - esse é um encargo dos partidos do arco do poder - e o povo vai tomando consciência da força que tem o jugo de Bruxelas. Essa não é, porém, a questão - ou, sendo, foi já dirimida quando aderimos conscientemente ao Euro. Mas o perigo que o país atravessa passa também por aqui: o de não se perceber ou não se aceitar a vantagem que temos em estar na Europa e com o Euro, e sermos atirados para uma deriva de esquerda que torne o país ingovernável e nos afaste dos padrões ocidentais que são os nossos. É bom recordar que a Europa apenas nos pede aquilo que lhe fomos pedindo emprestado.

Os analistas políticos têm sido quase unânimes em considerar que de um ponto de vista económico o Governo caiu na pior altura. O problema é que, como já aqui escrevi, tínhamos batido no fundo em termos de confiança entre os actores políticos e o recurso a eleições era inevitável. E o curioso é que, não se vislumbrando que qualquer partido possa conseguir maioria absoluta, torna-se essencial que, daqui até à votação eleitoral, os partidos arranjem forma de, depois das eleições, estenderem pontes, garantirem a estabilidade. Como o farão não se sabe: os actores são precisamente os mesmos e tempos eleitorais são normalmente mais propícios a cavar dissensões. Mas que isso tem de ser feito, tem.

PS - Não sei que reacção teve a ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues quando viu o PSD e toda a Oposição parar a avaliação de professores. A actual ministra abespinhou-se, naturalmente. O presidente do Sindicato dos Professores afivelou o seu sorriso trocista e vitorioso. Maria de Lurdes Rodrigues, certamente, terá reforçado a ideia de que poucas culpas tem no cartório: o regime, apodrecendo, desdenha a autoridade e eliminará ministro atrás de ministro.

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