Opinião

O histórico ressentimento

O histórico ressentimento

Porque é que o ministro do Ambiente e depois o dos Negócios Estrangeiros criticaram publicamente os seus colegas espanhóis a propósito da central de Almaraz, em vez de tentarem resolver o problema pelos normais canais diplomáticos?

Porque não resistiram a fazer uma guerrinha com os nuestros hermanos? Havendo um bom motivo, e a central nuclear está velha e devia acabar em vez de ser ressuscitada, a oportunidade era boa de mais para ser deitada fora. Afinal, de Castela, nem viúva nem donzela, nem bom vento ou casamento. E aqui para nós: de quem é Olivença? Ah, pois é!

Na tática do quadrado, a lembrar Aljubarrota, nem-quatro-contra-um-vai-buscar-Tibi, o ministro lusitano deu corpo moço e fôlego fresco às antigas táticas da propaganda (para consumo interno) do Estado Novo.

E passaram a estar incompletos os manuais de história da quarta classe do Governo de Salazar... A Política do Espírito, esse programa de fomento cultural subordinado aos fins políticos do Estado Novo, estava, sem ninguém saber, inacabado. É preciso juntar novo capítulo à obra da propaganda nacional de António Ferro.

O aterro nuclear da província de Cáceres passa a ter honras de "sound bite" histórico. Façam o favor de o acrescentar às páginas de glória da Lusitânia pátria: Aljubarrota, Atoleiros, Valverde, Trancoso e... Almaraz.

Com todos os ingredientes de uma boa história de propaganda, este episódio tem na opinião pública um efeito que nos enche a alma de emoção. Qualquer português com mais de quarenta anos foi educado desde petiz no fervor das lutas heroicas contra Castela. E mesmo quem não gostava de estudar história sabe bem que uma vitória contra os vizinhos do lado, no futebol ou a feijões, tem sempre um sabor especial.

PUB

Ao anunciar que Portugal se negava sentar-se à mesa com os espanhóis na na próxima quinta-feira, o nosso ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, deixa, aos olhos do povo, de ser apenas um simples político e passa a ser um campeão. Um Mestre de Aviz dos tempos modernos.

E enquanto os tenentes-generais terçam argumentos, o nosso soberano, António Costa, sem se mexer, fica com a voz mais grossa, mais razão, mais influência sobre o seu radioativo colega Rajoy e mais amado pelo povo, que não esquece o histórico ressentimento.

Até parece uma manhã de nevoeiro.

* ESPECIALISTA EM MEDIA INTELLIGENCE

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG