Opinião

E se a final falasse português?

E se a final falasse português?

Há quatro anos escrevi, na "Folha de São Paulo", de olhos fixos em Moscovo, que se os nossos países se encontrassem na final, eu nem sabia se o meu coração ia aguentar.

Quando escrevi, a nossa seleção era campeã da Europa e Cristiano Ronaldo estava no seu apogeu mas, no campeonato da Rússia, Portugal haveria de tombar cedo, às mãos do Uruguai, logo nos oitavos, e o Brasil logo na ronda seguinte, hipnotizado pela melhor Bélgica que o futebol já viu. O meu desejo virou pó.

Hoje, apenas um Mundial depois - parece impossível, não é? - a Rússia é um pária internacional que mergulhou a Europa na guerra e ameaça transformar-nos num continente secundário no xadrez internacional. O Mundo viveu uma pandemia online que mudou para sempre os hábitos de trabalho e os mecanismos de construção de confiança entre as pessoas, dando um novo sentido a conceitos antigos e criando outros novos, como nómadas digitais ou migrantes globais.

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No Brasil, a presidência de Bolsonaro partia o país ao meio e a história de Lula da Silva - qual roteiro de Hollywood, pedia meças ao mais fantástico hiper-realismo da literatura de García Márquez. Eles provam verdadeira aquela frase inesquecível: no Brasil até o passado é incerto.

Mas hoje, o português é a única língua duplamente representada nos quartos de final do campeonato do Mundo e por isso são maiores que nunca as chances de Portugal e Brasil se encontrarem na final. Se isso acontecer, vou ficar de coração dilacerado.

Vou ficar sem saber como torcer, sem saber quem aplaudir, sem saber quem apoiar. Porque os brasileiros adoram o Gonçalo Ramos, mas nós também amamos o Richarlison.

Como eu disse antes, uma final Brasil-Portugal? Seria bom, muito bom. Mas ia ser uma merda.

*Presidente da Associação Portugal Brasil 200 anos

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