Opinião

Estudar é um negócio da China

Estudar é um negócio da China

Pode daqui a 10 anos haver cursos apenas em inglês e mandarim nas universidades portuguesas? Pode. Ao contrário das infraestruturas, bancos e energia, o ensino não é considerado pela União Europeia um interesse estratégico a proteger. Será que o lítio vale mais que a cabecinha dos nossos jovens?

Um grupo privado chinês de Ensino Superior anda às compras em Portugal e colocou na lista de desejos mais de 30 universidades, públicas e privadas. Abordando diretamente proprietários e reitores acena ao setor o que aqui mais falta: dinheiro. Estudar em Portugal (já é) um negócio da China.

Em 2018 o site do Parlamento Europeu (PE) anunciava que, desde 2008, a China adquirira ativos na Europa no valor de 318 mil milhões de dólares - 1,5 vezes o PIB português - montante que nem incluía fusões, investimentos e empresas comuns e onde, só em 2017, 68% desse investimento chinês na Europa tinha origem em empresas públicas, sendo por isso considerado "investimento orquestrado pelo Estado [chinês] suscetível de pôr em causa os interesses estratégicos, os objetivos de segurança pública, a competitividade e o emprego na Europa".

Três anos e uma pandemia depois, o poder financeiro da China é hoje ainda maior. Uma incalculável liquidez disponível - majorada pela política de blacklist que o poder da Casa Branca impôs aos interesses chineses nos EUA e seus aliados tradicionais - deixou a Europa ainda mais vulnerável à necessidade chinesa de investir no estrangeiro.

O PE até aprovou legislação para controlar o investimento externo em áreas estratégicas, como a inteligência artificial, telecomunicações e robótica, para prevenir o mesmo que aconteceu quando a Volvo, a Pirelli, a Lanvin (moda), a EDP e a REN ficaram sob controlo chinês. Mas, o Ensino Superior, ninguém se lembrou de proteger.

*Especialista em Media Intelligence

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