Opinião

A nova era Digital

O mundo está mesmo a mudar. A desmaterializar-se. Daqui a dez anos vamos fazer quase tudo sem contacto direto com outros seres humanos. E não é só de ir às compras que estamos a falar. Ir ao médico, à escola, ao teatro ou, como esta semana vimos acontecer, ao banco, em menos de uma década será a regra em vez da exceção. E não se trata apenas de tomar posição sobre o que vamos perder ou ganhar com esta nova realidade, ou discutir de forma redonda se preferimos trocar um apertos de mão em vez de mandar um emails, o que é fundamental perceber, o mais depressa possível, é que nada será como dantes.

Esta semana pela primeira vez vi uma campanha publicitária onde uma empresa, o banco BBVA, pedia aos seus clientes uma coisa extravagante: não vão ao banco. Pensei que talvez fosse um engano e fui ver melhor. Mas afinal não me tinha enganado. O banco pedia (mesmo) para não irem ter com ele. Prometia ser ele a ir ter com os clientes. E, imagine-se, com cada um de cada vez!

Mas seria então publicidade enganosa? Será que há maneira de abrir uma agência em casa ou na empresa de cada cliente. Parece que sim. Estabelecendo também em ambiente de negócio as imensas possibilidades que o admirável mundo novo da tecnologia permite. Se as pessoas cada vez mais conversam, viajam, compram e até namoram na internet, será com certeza na internet que todos os serviços se hão prestar. É apenas adequar à vida económica aquilo que são já os padrões de comportamento das novas gerações.

À medida que as pessoas vão evoluindo preferem por conveniência o meio digital. Já não se trata apenas conquistar clientes trata-se de digitalizar comportamentos. E não apenas nos jovens, muitas pessoas com mais 70 anos ou mais, têm ainda capacidades mentais e físicas para entender e operar com novas ferramentas e reagem muito bem a todos estes sistemas, sobretudo no mobile.

Os novos smartphones emprestam uma dimensão desmaterializada à vida. Há mais telefones móveis que habitantes na terra - quase 7,6 mil milhões, segundo os últimos dados - e em cada telefone existe um verdadeiro portal de conhecimento.

Aquilo que ainda há pouco tempo seria uma estratégia de negócio suicida - "expulsar" os clientes das suas instalações - é hoje, com as capacidades tecnológicas instaladas, mais que uma vantagem sobre a concorrência, ou uma inovação fantástica; é uma obrigatoriedade para a gestão. Aqueles que demorarem mais tempo a adaptar-se ao novo mundo vão perder capacidade competitiva e ficar para trás.

Já não são apenas as matérias primas que são "commodities" - mercadorias pouco transformadas e cujo preço depende apenas da oferta e da procura - também o próprio conceito de "serviço" - até agora sempre considerado como algo de muito especializado e que requer grande diferenciação no tratamento - se transforma inevitavelmente. E não só na banca. Todos os serviços que conhecemos, desde os mais simples aos mais sofisticados, vão passar a ser prestados às pessoas de forma distinta daquela que conhecemos agora. O negócio do dinheiro - porque é dos mais sofisticados e profissionais - apenas intuiu primeiro a mudança primeiro que os outros. A digitalização vai ser generalizada.

Em todos os negócios e atividades humanas onde o que mais importa é rapidez, tecnologia e disponibilidade; em todas as atividades onde o tempo é o ativo mais valioso que se pode oferecer aos clientes, nada será como dantes.

Mas neste novo mundo digital, onde os comportamentos se podem prever e padronizar, passa a ser possível perceber "antes" o que vai acontecer "depois". E porque é possível, passa também a ser uma grande vantagem, compreender e reutilizar a imensa quantidade de dados que esta nova forma desmaterializada de operação produz. Esta necessidade vai fazer nascer no coração das empresas novas tarefas que vão precisar de novas competências na gestão de topo.

Aqueles que são os sectores tradicionais na gestão de uma empresa, o marketing, as finanças, as operações - aquilo a que vulgarmente se chama o C-suite - CEO, CFO, COO, etc - vai ser complementado com uma nova função: CIO, Chief Intelligence Officer. Em português, será aquela pessoa responsável pela gestão dos impactos que as informações terão na vida das organizações.

Conhecer apenas a forma como as coisas aconteceram é, hoje em dia, pouco relevante para a gestão. O que agora é obrigatório, e diferenciador, é antecipar o que vai acontecer.

Imobusiness