Opinião

Não há grutas no Burundi, nem vergonha nos jornais

No Burundi há 5 milhões e 300 mil crianças com fome. E zero grutas.

45% da população do Burundi tem menos de 14 anos. Quase metade dos 12 milhões de habitantes desse desgraçado país africano são crianças pequenas. Como aquelas que há nas nossas casas. Adolescentes! Putos!

Fosse aqui na Europa, andavam agora no 9º ano, a fazer exames de matemática e português, entre greves de professores e protestos sociais. Mas lá no Burundi, na terra dos herdeiros das memórias trágicas da guerra e da colonização belga, cada mulher tem 6 filhos e cada um dos 11.466.756 burundianos vive com menos de 800 dólares por ano.

Se fizermos as mesmas contas que tornaram célebre o agora secretário-geral das nações desunidas e nosso Guterres, deixa ver, cada um, por dia, tem... a assombrosa quantia de 1,83 euros. Fui ao supermercado e encontrei preços a condizer numa caixa de chicletes e num pacote de batatas fritas, dos pequenos.

No Burundi há 5 milhões e 300 mil crianças com fome. E zero grutas.

Gostei de ver o salvamento da Tailândia! Foi épico! Bonito! Fez-me chorar! Ficámos agarrados à televisão a medir a serpentina da água, a coragem dos mergulhadores e o azar da criançada. Raio de putos que se foram meter no mesmo no olho do furacão. Eles e o treinador. E o mundo a olhar para as probabilidades impossíveis de um salvamento milagroso. E que bom! Salvaram-se!

Todos a torcer pela vida e nós a aproveitar a catarse! A fazer força e a oferecer orações. Se tudo correr bem os rapazes ainda vão a Moscovo ver a final do mundial e acenar à multidão extasiada ou dar nome à marca de um novo Tesla. "Ave Infantino; Ave Tesla. Os que foram salvos te saúdam". E os jornais em êxtase, e as televisões em direto, coisa tão linda... Vivam os Tailandeses, dissemos!

Mas no Burundi há 5 milhões e 300 mil crianças com fome. E zero grutas.

Enquanto a nossa consciência coletiva se sacia na miséria oca de um reality show de audiências televisivas e cliques de internet, vem-me à memória aquela frase macabra tantas vezes atribuída a José Estaline. "A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística".

Mas o que eu sei, é que no Burundi há 5 milhões e 300 mil crianças com fome. E zero grutas. E que lá, ninguém chama mergulhadores, nem o Elon Musk, nem o Infantino. Nem os repórteres de serviço.