Opinião

Suspender o Lava Jato

Se por uma vez a sociedade brasileira discutisse o futuro em vez do passado, o próximo mês de outubro poderia dar ao Mundo um líder novo. Mas para isso acontecer era preciso um milagre. Ou então suspender o Lava Jato.

Quando na vertigem da delação premiada o poder judicial conluiou envergonhadamente com o poder político a destituição de Dilma Rousseff, todos sabiam o que estavam a fazer: a decidir o único assunto que seria tema nas eleições.

O negócio era claro, Michel Temer protegia-se, a si e à sua turma, do rolo compressor da Lava Jato e Sérgio Moro ganhava balanço para poder conquistar o troféu que o levará a ficar para sempre na história da justiça do Brasil: ser o primeiro juiz a prender um presidente por crimes comuns. Questões mundanas e pessoais.

Quando a luta contra a corrupção deixou de ser um fim em si próprio e se tornou no único assunto da luta pelo poder, era fácil de perceber que o Brasil ia ficar esquizofrénico. O Lava Jato passou a ser o único assunto, impedindo qualquer discussão estratégica do país.

Dividia o Brasil em dois. De um lado os mais pobres, que beneficiaram com as políticas do PT, não quiseram saber disso porque antes tinham mais regalias e qualidade de vida; do outro os mais ricos, que nem se importaram de desproteger a democracia e o Estado de direito para não perder ainda mais influência na sociedade.

E tudo piorou quando no centro desta equação perversa estão dois protagonistas que não podem ser eleitos. Moro e Lula. Os dois no melhor estilo do cinema negro, vilão e mocinho, espalhando o caos e o vazio à sua volta, disputando em exclusivo a atenção do povo sem que algum deles contribua para qualquer solução.

É verdade que a corrupção é o maior problema do Brasil. Mas é tão grande e tão enraizada, nas instituições e nas pessoas, que não devia ser tratada neste clima.

Era preciso que os brasileiros gastassem os três meses que faltam para as eleições a namorar o Brasil, em vez de discutir a relação. A pensar qual o modelo de Estado que querem ter, como pensam lidar com as assimetrias da população, como vão tirar partido dos seus recursos e qual o papel que o Brasil vai ter no Mundo.

Mas como só dá Lula e Moro, não dá namoro. Nem suspendendo o Lava Jato.

ESPECIALISTA EM MEDIA INTELLIGENCE