Opinião

Vacances

Quando eu era adolescente, e no verão se juntava toda família, os meus primos que nasceram em França não diziam férias, diziam "vacances".

Por amor às raízes e saudades da pátria, os meus tios fizeram a língua portuguesa oficial e obrigatória no seio familiar. Os primos falavam um português perfeito. Mas diziam "vacances".

"São tão boas as "vacances"; e as coisas que só fazemos em "vacances"; e nas "vacances" do ano passado a prima Manuela estava mais magra", e por aí fora, palavra gorda e francesa, a contrastar com os esmeros linguísticos de uma família que, apesar de simples e emigrante, cuidava o português a sério.

Uma vez perguntei por que razão usavam eles esse estrangeirismo gaulês no meio de tanta destreza na língua de Camões. E foi porque estranharam a pergunta, que logo descobri a resposta. Os primos nunca tinham ido de férias. Sempre que o calor estiava no calendário e os pais podiam visitar a família e os amigos em Portugal, esse tempo chamava-se "vacances".

Quando penso nos filhos do tio Adelino, os meus primos que nunca mais encontrei depois de ter ido para a faculdade, é disto que me lembro mais. De um grupo de miúdos - eram seis - que falavam português como se vivessem em Lisboa, mas para quem "descanso" era uma palavra francesa.

Só uns anos mais tarde compreendi porquê. Verdadeiramente a primeira vez que os tios puderam ir de férias, elas já se chamavam assim. Como tinha sido a vida que tinham em França a dar-lhes a possibilidade de descansar, chamar "vacances" às férias não era um estrangeirismo, era uma homenagem.

Já este ano, na praia mesma fluvial da minha infância - agora muito mais moderna e com "wifi" grátis -, uns miúdos estrangeiros, da mesma idade que tínhamos antes, estavam sentados à sombra esperando passar a torreira do sol. Falavam inglês.

Não jogavam às cartas, nem atiravam seixos ao rio e nem trocavam mimos adolescentes entre rapazes e raparigas, como antes fazíamos. Apenas olhavam para o ecrã dos seus telefones, provavelmente trocando mensagens com aqueles amigos que não tinham vindo.

As "vacances" agora são "holidays", e aqueles miúdos até podiam ser os filhos dos meus primos franceses. Mas não meto conversa. Prefiro procurá-los no Instagram, talvez consiga falar com eles.