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Opinião

As quotas para as mulheres não chegam

As quotas para as mulheres não chegam

Igualdade não é um em três. É dois em dois. O sistema de quotas é discriminatório para as mulheres. Porque, ao contrário do que pode parecer, foi feito para proteger os homens e não para promover as mulheres.

Há uma história que golfistas contam que ajuda a perceber isto. Um clube centenário, muito tradicionalista, não aceitava mulheres como sócias. As esposas dos membros do clube podiam ir ao club house, assistir aos jogos, usar o restaurante, participar nos eventos sociais e até fomentar ações de formação para os mais novos; mas não podiam jogar. Os estatutos do clube não o permitiam.

Mas os tempos mudam e a idade das esposas também. Com o passar dos anos a idade dos jogadores diminuía e a das ainda consortes também. Neste ínterim geracional uma carta assinada por todas as esposas chega à direção. Em tom de abaixo-assinado a senhoras assertavam - Queremos que nos seja garantido o direito a jogar.

Mas a direção só reunia uma vez por triénio, o clube era mesmo antigo com bola preta e essas coisas, só depois da terceira reunião, quase uma década de pois de muitos abaixo-assinados semelhantes na forma e crescentes em desagrado no tom, lá chegou a desejada resposta; "A direção do clube, considerando o espírito único e tradicionalista da nossa instituição mas tomando boa nota da insistência das esposas dos sócios que muito preza, depois de refletir sobre as inegáveis mudanças que a sociedade tem experimentado nesta era da conetividade global e considerando a inegável qualidade moral das peticionárias delibera que, a partir do próximo ano civil seja concedido às mulheres dos sócios a capacidade jogadoras sempre que na estrita observância dos antigos usos e costumes do nosso clube.

Sem querer saber das letras miudinhas as meninas logo cantaram vitória, beberam champanhe e fizeram a loja do clube entrar numa nova era de crescimento a vender sets de senhora. Mas...

Contra todo o prognóstico, nem um mês depois, novo abaixo-assinado, das mesmas peticionárias, chega à direção. As novas jogadoras protestavam, exigindo proibição imediata, do facto de os jogadores homens fazerem chi-chi no campo durante os jogos.

Repetido o longo ciclo deliberativo, a resposta lá chegou, outra década volvida: Reunida, a direção do clube, blá blá blá, delibera, que as senhoras jogadoras, querendo, também podem fazer chi-chi no campo.

Numa sociedade secularmente machista como a nossa, o caminho para a igualdade das mulheres não passa só por lutar pela igualdade de direitos, mas sim pela conquista da aceitação das diferenças.

*ESPECIALISTA EM MEDIA INTELLIGENCE