Opinião

Boris, Boris, quem és tu?

Boris, Boris, quem és tu?

"Ser ou não ser, eis a questão" - Ontem, no momento mais dramático da votação na Câmara dos Comuns, em Londres, o deputado conservador Phillip Lee levantou-se enquanto o primeiro-ministro Boris Johnson discursava.

"Até tu, meu filho" - Num momento, levantou-se e atravessou o tapete verde da Casa para se ir sentar do outro lado, entre os Liberais Democratas.

"Penso, logo existo" - O deputado Philip Lee sinalizava assim, com a discreta pompa e circunstância dos costumes ingleses, o facto de estar a mudar de partido. Ao vivo e a cores. Em direto pelas televisões.

"Nada é permanente, exceto a mudança" - Naquele instante, Boris gaguejou. Naquele momento histórico, na sua primeira votação como primeiro-ministro, perdia a maioria de um único voto que a tanto custo conquistou. Foi um dia mau para ele.

"Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros." - Por 328 votos a 301; até alguns conservadores se voltaram contra Boris; o Parlamento tirou ao Governo o direito de marcar a agenda da sessão parlamentar.

"Não passarão" - "Não há consentimento desta Casa para que deixemos a União Europeia sem algum acordo", afirmou o líder trabalhista, Jeremy Corbyn. "Quando o primeiro-ministro tiver uma política para o Brexit, ele deve apresentá-la ao Parlamento para que tenhamos uma votação pública".

"Não te irrites, vinga-te" - Ao deixar ontem o Parlamento, a ex-PM derrotada por Johnson, Theresa May, sorria.

Sem saber, Boris perdia uma votação para que se cumprisse um desígnio. Hamlet, Dolores Ibárruri, Descartes, Jesus Cristo, Júlio César, Sun Tzu e Frei Luís de Sousa são apenas testemunhas históricas de uma morte anunciada.

"Boris, Boris quem és tu? Ninguém!"

*Especialista em Media Intelligence