Opinião

Mação podre

A única coisa de que António Costa tem medo é do fogo. É só o fogo que lhe pode derreter a popularidade que conseguiu. É o único elemento que o separa do poder absoluto. O primeiro-ministro sabe que se não houver incêndios ele chega lá e pronto.

Mas se o país arder outra vez, o que é muito provável que aconteça, a coisa pode não ser bem assim. Por isso o fogo é o principal aliado do Rio. E do Bloco. E da foice e do martelo.

É neste contexto que os incêndios de verão entram na luta política. Logo à primeira faúlha começa o jogo do empurra. De São Bento ao firmamento com os olhos postos nas listas para o Parlamento. Até parece que as pessoas de Mação não interessam nada.

Fui ver. São 7338 os que em Mação sofrem com as labaredas. Mas enquanto lhes ardem as terras a única coisa que Lisboa e os jornais discutem é de quem é a culpa.

Os 6445 cidadãos inscritos nas últimas eleições autárquicas são a bola de trapos no futebol televisivo pré-eleitoral. Costa passa para Cabrita que, isolado em frente a Estrela, fuzila o autarca de Mação. "O senhor presidente da Câmara [...] foi um verdadeiro comentador televisivo, em vez de promover a ativação do Plano Municipal de Emergência e a cooperação a favor do esforço da Proteção Civil".

Ninguém sabe se os 1091 eleitores que votaram no PS estão de acordo com o relato. Mas diz-se que alguns deles viram o fogo queimar-lhes os calcanhares. Também não é sabido se os 3025 que votaram PSD se sentem-se mais ou menos indignados com o folclore dos políticos. Parece que viram a chula.

Faltam outros 1720 que nem sequer foram votar. Talvez chorem os mortos e o trabalho de uma vida inteira que o fogo lhes levou.

Não é por acaso que podre e poder se escrevem com as mesmas letras.

*Especialista em Media Intelligence