Opinião

O país ciberinseguro

Primeiro foram os emails do Benfica espalhados por toda a parte. Já este ano, os ficheiros internos da sociedade de advogados PLMJ sobre os casos E-Toupeira e a Operação Marquês a ser acedidos ilicitamente e divulgados num blogue; e mesmo antes do verão a Fundação Champalimaud declara que foi alvo de um "ataque informático sem precedentes".

Futebol, justiça e saúde, só para citar estes três casos, à mercê de piratas informáticos que roubam informação e destroem valor, como os antigos corsários violavam mulheres e incendiavam barcos. Mas em Portugal muito pouco ainda se faz para tratar disto. Os mails do Benfica são tratados com riso, os documentos da PLMJ vazados com alegria e o que aconteceu nas 44 horas "até que todos os sistemas fossem integralmente restabelecidos na Fundação Champalimaud", ninguém sabe.

Em quase todos os indicadores, Portugal fica abaixo da média da União Europeia em termos de Cibersegurança, mesmo apesar de o problema ser percebido como sério pelas empresas como mostra um estudo da empresa Marsh. Mas compreender que 70% dos membros dos conselhos de administração classifiquem o Ciber-risco como uma das principais preocupações e apenas 14% estejam confiantes na capacidade de resposta das suas empresas, é um mistério incompreensível. Só neste país.

Outro relatório, do gabinete de Estratégia e estudos do Ministério da Economia, organizado por Gabriel Osório de Barros, deixa empresas e Estado em má posição e mostra um país ciberdespreparado e ciberatrasado, com serviços de segurança ineficientes e mal aplicados.

Exemplo disto é Portugal ser o terceiro país da União Europeia que mais ataques de malwares (vírus de computador) sofre e o oitavo mais vulnerável, e onde apenas 2.3% - dois vírgula três - dos servidores hospedados por Portugal estão protegidos. Portugal é ciberinseguro à vista de todos.

Talvez por a lei da proteção de dados pessoais só ter sido promulgada o mês passado, um ano depois de entrar em vigor, só foram aplicadas quatro multas no valor total de 424 mil euros, mas agora já não vai haver mais desculpa. Os valores a pagar podem chegar a 4% do volume de negócios anual, com um limite de 20 milhões de euros para as grandes empresas e 2 milhões para PMEs.

Quando o longo braço do fisco perceber que há aqui receita, ninguém escapa.

*Especialista em Media Intelligence