Opinião

O verdadeiro Frexit

Paris. 28 de Janeiro. 11 da noite. Os cartazes "Frexit" que Marine Le Pen usou na campanha de 2017, apelando à saída da França da União Europeia e que ainda se encontram colados por toda a parte, foram o mote para o diálogo com M., um franco argelino de terceira geração, motorista de Uber, zangado com a vida e participante ativo no protesto dos coletes amarelos.

- Mas a luta dos coletes amarelos ainda continua? Atirei. Acabou por não dar grandes resultados... M. indignou-se com a minha provocação e retorquiu.

- Monsieur, a nossa luta deu resultados. O salário mínimo aumentou 100 euros, a contribuição social (0,3% nas reformas até 2000 euros) acabou e as grandes empresas vão contribuir mais para o esforço do país.

- Então valeu a pena! Disse, desculpando-me com brevidade. Mas havia mais.

- Monsieur, e o imposto sobre as horas extraordinárias acabou e o das grandes fortunas vai avançar.

Ainda que vitorioso, M. continuou amargo durante todo o trajeto desde o aeroporto de Orly ao Hotel de charme que ocupa o edifício que faz a esquina entre a Rua de Louvois e a Rua de RIchelieu, bem no centro de Paris, a 5 minutos a pé da antiga Bolsa, agora está transformada num centro de eventos e congressos.

M. tinha razão para continuar sombrio, porque as vitórias do movimento dos coletes amarelos que ele "zangadamente" ajudou a conquistar, também representam a derrota do mundo em que ele acredita.

Desde que a agitação social em França se anunciou, muito antes de começar a vestir-se de amarelo, que as grandes empresas começaram a sair. O preço pelo qual Macron compra a paz na rua é demasiado alto para a economia da França.

Afinal o Frexit não foi uma ideia radical da extrema-direita em que a França saía da Europa, mas uma imposição resultante da falência do modelo social e económico francês. Não saem os cidadãos, mas sai o dinheiro.

Instaladas em Portugal, Accenture, Natixis, Fujitsu, Armatis, Teleperformance, Chauffeur Privée receberam esta semana a companhia do unicórnio Solutions 30, também fugido aos impostos do insustentável estado social francês.

Este Frexit económico é razão que está por trás da amargura de M. Porque sem ele saber, a esperança que o move é uma causa perdida.