Opinião

RIP João Vasconcelos

Estive com o João Vasconcelos apenas duas ou três vezes e como quase todos os portugueses que o conheciam assim, tinha a ideia que era um empreendedor focado em fazer coisas que ainda ninguém tivesse feito. Foi ele que trouxe o Web Summit para Portugal e independentemente de qualquer outra coisa, só por isso, o João merece que os portugueses guardem dele uma boa memória.

Mas o objetivo deste texto não é um elogio póstumo à obra incompleta de um antigo governante que, como acontece com muitas pessoas que acabam por se envolver com a política - talvez esse medo as afaste - acabou por ver o seu nome envolvido em coisas menos boas. Mas não é disso que quero falar. Quero antes refletir convosco no que representa uma morte trágica e prematura.

Repito aquela frase do Estaline."A morte de uma pessoa é uma tragédia, mas a de milhões é estatística". A morte de pessoas conhecidas ou com quem contactamos regularmente, tem a capacidade de transformar essa estatística em tragédia e põe-nos à frente, nua e crua, a nossa fragilidade individual. Verdadeiramente não somos nada. Somos apenas a nossa condição e o que o destino nos determina. Pó.

Releio a última coisa que João Vasconcelos escreveu nas redes sociais - "Quanto mais tempo passamos online mais valorizamos tudo o que é offline, a natureza, as emoções, a arte, a cultura, a manufactura, tudo o que nos transmite sentimento". É um testamento involuntário em que não paro de pensar.

Quantas vezes na nossa vida nós sacrificamos o sentimento ao trabalho? Quantas vezes não conseguimos perceber o que é verdadeiramente importante? Quantos beijos já deixámos de dar? Quantos abraços? Quanta gentileza e solidariedade não entregámos a quem dela precisa?

Quantos livros deixámos por ler? Quantos amigos não visitámos? Quanto tempo não entregámos aos nossos pais, aos nossos avós e aos nossos filhos, aos nossos companheiros? Quanto? Quanto tempo gastámos apenas na perseguição fútil da nossa vaidade individual?

Guardo do João Vasconcelos, que mal conheci, esse ensinamento trágico. Amar mais a natureza, as emoções, a cultura e tudo o que nos transmite sentimento.

Deus te guarde. Descansa em paz.

PS: E um dia depois desse ensinamento, recebi uma noticia que vai mudar o que foram os meus fins-de-semana nos últimos 4 anos: a minha crónica semanal no JN deixa de ser ao Domingo e passa a ser à Quinta-feira. Quer dizer que passo a ter tempo para mim e a estar disponível a 100% para aqueles que mais Amo. Obrigada Vida.