Opinião

O melhor de nós

Cada um de nós tem agora uma nova responsabilidade. É mesmo verdade que podemos ser o que quisermos se soubermos para onde vamos e utilizarmos as armas que temos. É só por os olhos na equipa quase sem estrelas que, contra tudo e contra todos, soube lá chegar.

Ufa, que dias estes! Tantas emoções. Tantos festejos, tanto orgulho. Tanto Portugal que, afinal, nos une tanto. Tanta coisa para pensar. Tanta alegria para transformar em energia. Mas, e quando voltámos ao trabalho, o que será que em nós mudou? Como vai trabalhar uma nação que agora é campeã? Para onde vai? Para onde vamos?

Pouco a pouco vão voltar aos jornais as notícias do costume. O Brexit e a nova Europa que aí vem. Os refugiados que o verão vai trazer em marés cada vez mais vivas através do Mediterrâneo. A incerteza política e demográfica que virá pela Turquia, os desafios e provocações da Rússia, cada menos veladas, dirigidas agora a uma Europa politicamente à deriva e mais indefesa sem a capacidade militar do Reino Unido. Mais tarde, as eleições americanas, que vão ocupar todo tempo das notícias depois da olimpíada que vai ter lugar no Rio de Janeiro, essa cidade em chamas e à beira da bancarrota. E o terrorismo que virá sentar-se à nossa mesa com cada vez maior frequência. Foi já em Nice e na Promenade dos ingleses, no dia da Bastilha e da liberdade, e ainda nem tinha arrefecido a dor gaulesa dos futebóis.

E cá dentro? Vão voltar o défice, as ameaças das agências de notação financeira, as táticas de cada interesse, as culpas de cada partido, de cada grupo particular, as vantagens fáceis, as coisas para os amigos, as quotas do sindicato, as 35 horas para todos, a vida de cada dia. As férias na praia para quem pode, a escola dos miúdos, o campeonato que não tarda e o Natal à porta... Mas será que nada vai mudar?

Agora que somos uma nação campeã, sem ser apenas nos livros de História, em que mais poderemos acreditar? Será mesmo inevitável, uma fatalidade, que tudo continue na mesma? Que continuemos a viver como habitualmente?

Eu quero acreditar que não! Cada um de nós tem agora uma nova responsabilidade. Um novo imperativo que nos vem de interpretar esta utopia; que nos vem de constatar que fomos capazes de transformar em realidade aquilo em que, antes, não conseguíamos acreditar. Que é mesmo verdade que podemos ser o que quisermos se soubermos para onde vamos e utilizarmos as armas que temos. É só por os olhos na equipa quase sem estrelas que, contra tudo e contra todos, soube lá chegar.

PUB

Para que isso aconteça é preciso enterrar o velho do Restelo em que quase todos nos transformámos na história recente. Pôr-lhe uma cruz por cima da sepultura, nunca esquecer o seu lugar - e partir de novo. Partir, para de novo poder almejar à dimensão do sonho. À conquista do impossível. À realização de Portugal. Porque o melhor de nós, está para chegar.

(Como é bom saber que, desta vez, há milhares de textos sobre a derrota da seleção que foram para o lixo, em vez de irem para a primeira página.)

*ESPECIALISTA EM MEDIA INTELLIGENCE

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG