Opinião

Obrigado, Edward, mas acabou o tempo

Obrigado, Edward, mas acabou o tempo

No momento exato em que Edward Snowden ia dizer o que é preciso fazer para impedir as gigantes tecnológicas de acabar de vez com a democracia no Mundo, o entrevistador de serviço ao palco principal Web Summit interrompeu-o e disse-lhe: Obrigado, Edward, acabou o tempo.

Depois, o apresentador anunciou aos espectadores que pagaram (alguns muito) para encher o Pavilhão Atlântico, que não se podiam levantar durante os 60 minutos seguintes. O antigo espião americano - à distância - e o empreendedor irlandês - in loco - iam fazer a abertura oficial do maior evento de tecnologia do Mundo. We are going live.

O espetáculo, que pela primeira vez na história da Summit ia ser transmitido em direto por 10 canais de televisão, tinha ainda a participação especial de um ministro português e do presidente da Câmara de Lisboa, sendo também abrilhantado por outros empreendedores globais onde se incluía o filho do ator americano Will Smith e as suas (meritórias) preocupações socioambientais. Is the Web Summit show!

Snowden sorriu com resignação para a câmara quando foi informado que não podia continuar a falar. Por momentos ainda insistiu - o que se faz quando as mais poderosas instituições da sociedade são as menos responsabilizáveis? Não são os dados que estão a ser explorados, são as pessoas. Mas acabou rendido. Time is over, the show must go on. Goodbye, Edward.

Um pouco mais tarde, o CEO Rotativo da Huawei haveria de subir ao mesmo palco para vender a visão do Mundo que o capitalismo chinês tem para a tecnologia 5G. Durante o painel "5G+X: Criando uma nova era?", Guo Ping mediu cada palavra. "As pessoas que estão à distância vão-se ligar em tempo real, como se estivessem sentadas no mesmo sítio".

No mesmo ecrã gigante, onde, minutos antes, Snowden ia falar dos imensos perigos que espreitam a democracia e foi interrompido, o presidente da Huawei apresentava - demoradamente - o seu produto inovador. Dois músicos, separados por meio planeta - uns na Suíça, outros em Pequim - davam um concerto em simultâneo usando a tecnologia onde a China lidera. "O 5G é a nova eletricidade", disse Ping.

No palco principal da Web Summit o Mundo assistia em direto à fina ironia da melhor metáfora para explicar o futuro. O espião que desafiou o poder dos Estados Unidos e vive escondido na Rússia servia de modelo publicitário ao líder da maior empresa tecnológica da China. Donald Trump tem mesmo razão para estar preocupado. E o Mundo também.

*Especialista em Media Intelligence