Opinião

Vulgaríssimas

Se não houvesse Internet, telefones portáteis ou redes sociais, o caso da raríssima-senhora-com-uma-causa que aparentemente não resistiu ao sabor do caviar e à vaidade da moda, nunca teria acontecido.

Ela nunca se teria demitido por dizerem que andava a gastar o dinheiro que os outros lhe davam e continuaria a ser apenas uma benfeitora - aquilo que, com certeza, e apesar de todos os nomes que agora lhe chamam, foi a maior parte do tempo.

Este caso teve tanta notoriedade porque junta, no mesmo lugar e ao mesmo tempo, os principais ingredientes de que se alimenta a atualidade: partilha, poder, dinheiro, inveja, amor e vaidade.

Estas qualidades do ser humano (qualidades sem sentido moral, sem valoração positiva ou negativa) são incrivelmente aumentadas e evidenciadas pela conetividade global. A Internet e, dentro dela, as redes sociais, fazem com que já ninguém vá sozinho para a cama e é raríssimo que a última coisa que alguém faça antes de dormir não seja ver um "post" ou por um "like".

Se, desde sempre, é por causa da vaidade que se escorrega e da inveja que se denuncia, num mundo sempre ligado os perigos são muito maiores.

Ainda não há poucos anos a primeira pergunta que alguém fazia num telefonema era: quem fala? Mas agora é: onde estás? Isto, que parece pouco, mudou tudo no relacionamento entre pessoas. Quando os telefones saíram da mesa da sala de visitas, onde eram partilhados por toda a família, e passaram para o bolso, onde cada pessoa tem o seu, o que mudou, não foi apenas o lugar onde se podia falar, foi a forma de organização social e a alteração dos mecanismos de partilha.

Antes, o ato de partilhar acontecia num espaço comum onde a individualidade era reservada; hoje, a partilha acontece num espaço estritamente privado onde a individualidade é facilmente devassada. Por isto, no mundo do isto-anda-tudo-ligado os cuidados a ter são mais que muitos.

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No caso da Raríssimas, talvez possamos agradecer que nos tenha ajudado a acabar com um esquema ilícito, praticado por pessoas que se deixaram vencer pela vaidade. Mas nem sempre são pecadores o alvo da inveja, e nem sequer é raro que isto aconteça a pessoas boas. É uma situação vulgaríssima.

* ESPECIALISTA EM MEDIA INTELLIGENCE

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