Opinião

IGAS e Barreiro. Um mau relatório

IGAS e Barreiro. Um mau relatório

Li três vezes o relatório da IGAS (Inspeção-Geral das Atividades em Saúde) sobre o caso dos doentes que perderam a oportunidade de fazer quimioterapia no Hospital do Barreiro.

Este mau relatório é uma peça verdadeiramente mirífica, que não dignifica em nada os serviços que em Portugal se deviam dedicar a garantir que o sistema funciona e a defender a sua qualidade, a bem dos doentes e também dos bons profissionais.

O problema é que a IGAS depende do Ministério da Saúde e está programada para culpar profissionais, mas quando a culpa é claramente das Administrações, "interpreta" os factos de forma benigna com o objetivo de as desculpar e proteger.

Contrariando o objeto do relatório (que seria o de se avaliar se as regras de boa prática foram ou não cumpridas e de quem foi a responsabilidade do seu incumprimento) a relatora refugia-se numa mistura da realidade com ficção. Quer isto dizer que identifica a UGDO (Unidade de Gestão da Doença Oncológica) como uma estrutura em plena função no hospital e remete-lhe as falhas que admite ter encontrado.

Porém, não o poderia ter feito, porque foi confrontada documentadamente com a ausência do seu funcionamento, por responsabilidades da Administração e da Direção Clínica, que inclusivamente mentiram ao afirmar que desconheciam a situação.

A forma como a relatora aborda o grave problema dos doentes é verdadeiramente caricata. Confirma que se perdeu a janela terapêutica nos três doentes, omite a menção ao protocolo de tratamento do cancro do cólon e reto que recebeu e opina que nada de mal aconteceu aos doentes porque estão (ainda) em remissão. É ultrajante, perigosamente abusivo e cientificamente errado afirmar que a evolução dos doentes não pode ficar em causa com a omissão de tratamento. Inacreditável!

Além disso, é escandaloso admitir que teve conhecimento de um black book com mais cinco doentes cuja janela terapêutica se perdeu e nada daí concluir! Ora, se existem mais casos e se estes até foram levados ao seu conhecimento, isso não provará que existe uma disfuncionalidade no hospital? E não deveria obrigá-la a identificar os responsáveis?

Entretanto mantêm-se as dificuldades habituais no Hospital do Barreiro. Para além do referido, a Urgência tem equipas insuficientes e está superlotada em permanência (com 45-50 doentes passados em cada mudança de equipa e com os chefes de equipa por vezes a não quererem receber a Urgência, só o fazendo após comparência da Diretora Clínica).

O Serviço de Radioterapia está sem um Físico Médico ao seu serviço desde fevereiro e a entrada dos doentes em tratamento está a demorar pelo menos três semanas, com alguns a serem desviados para outro prestador. Como funcionará um Serviço de Radioterapia sem um Físico Médico?

Senhor Ministro da Saúde, insisto, quando impõe ordem e nova linha de rumo no Hospital do Barreiro?

BASTONÁRIO DA ORDEM DOS MÉDICOS