Opinião

"Medicina" Tradicional Chinesa? (2)

"Medicina" Tradicional Chinesa? (2)

A gelatina de burro é recomendada num site de "Medicina" Tradicional Chinesa (MTC) como "milagrosa" para uma imensa série de situações clínicas; referem que há muitos estudos científicos, mas não citam nem encontrámos nenhum.

Todavia, além da generalizada ausência de evidência por métodos científicos, a fitoterapia tradicional chinesa é apresentada como natural, segura e sem efeitos secundários. Sê-lo-á mesmo?

Cientistas australianos estudaram produtos de fitoterapia chinesa (Scientific Reports. 5: 17475 ; DOI: 10.1038/srep17475). Foram analisados 26 produtos da MTC. As conclusões impressionam, 50% tinham constituintes de plantas e animais não declarados, incluindo uma espécie em risco de extinção (leopardo das neves), e 50% tinham medicamentos na sua constituição, incluindo warfarina, cortisona, diclofenac, ciproheptadina e paracetamol (como os produtos de MTC são ineficazes, associam-lhes medicamentos verdadeiros, sem o declararem). Foram ainda encontrados metais pesados, incluindo arsénico, chumbo e cádmio; um dos produtos tinha níveis de arsénico mais de dez vezes acima dos limites aceitáveis. Globalmente, 92% dos produtos testados da MTC apresentavam alguma forma de substituição ou adulteração.

Os produtos da MTC e suplementos de plantas têm uma longa história de conterem medicamentos não declarados, incluindo fenilbutazona, aminopirina, testosterona, prednisolona, diazepam, clorzoxazona, paracetamol, indometacina, hidroclorotiazida, etc. (www.accessdata.fda.gov/cms_ia/importalert_173.html). Estão relatadas intoxicações graves por metais pesados com produtos da MTC (Yonsei Med J, 2014; 55: 1177-86). Num artigo chinês de revisão de casos clínicos de lesão do fígado induzida por medicamentos, 44,2% foram devidos a produtos de MTC (J Clinical Translational Hepatology, 2014; 2: 170-5).

Quanto à comprovação da eficácia, basta consultar a insuspeita base de dados da Cochrane para verificarmos que, na sua generalidade, ou não há evidência, ou se comprovou a ineficácia, ou a "evidência" é ténue e baseada em estudos de metodologia pouco robusta.

Tudo isto advém de não ser tolerável que este género de produtos seja vendido em Portugal livremente sem qualquer tipo de controlo de qualidade e sem terem de apresentar estudos credíveis que comprovem as alegações terapêuticas que lhes associam! Nada. Estes produtos devem sair da alçada da DGAV (que não tem meios sequer para confirmar a veracidade dos rótulos!), para a responsabilidade do Infarmed (que tem capacidade e meios).

Da MTC, a medicina ocidental adotou as técnicas que demonstram efetividade, como a acupunctura, mas rejeita que se continuem a publicitar produtos apenas com base na "tradição", sem qualquer evidência científica e sem qualquer controlo de qualidade. É a saúde pública que está em risco.

* BASTONÁRIO DA ORDEM DOS MÉDICOS

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