Opinião

Repor, poupar e resolver problemas

Repor, poupar e resolver problemas

Depois de repor as 35 horas como referencial de trabalho na Função Pública, o Governo perdeu autoridade moral e económica para prolongar o período da troika e continuar a obrigar os médicos a fazer centenas de milhares de horas extras sem pagar o seu valor real. Já bastam os baixos salários base.

Além disso, alguém não fez bem as contas. Ao não repor o valor tabelar das horas extras, o Estado está a pagar muito mais às empresas fornecedoras de mão de obra e, como consequência, em termos globais, tem mais despesa, menos qualidade, mais instabilidade, mais falhas, menos equipa, menor motivação e disponibilidade e pior capacidade de fixação dos médicos no SNS.

Como consequência do anteriormente descrito, os hospitais têm enormes dificuldades em incrementar a produção cirúrgica e constituir as equipas de urgência com médicos especialistas em número suficiente, pelo que as horas de espera das cores da triagem de Manchester são largamente ultrapassadas, com prejuízo dos doentes.

Com este panorama, os conselhos de Administração exercem uma pressão terrível sobre os médicos internos para os obrigar as fazer mais horas, que pagam como horas normais, e para trabalharem sem a adequada supervisão de médicos especialistas, colocando-se a si e aos doentes em risco. É inadmissível. O trabalho médico na urgência é de elevadíssimo risco, desgaste, complexidade e responsabilidade.

Por outro lado, o SNS tem dois problemas a necessitar de urgente resolução:

1) Cativar os médicos, para evitar que emigrem ou saiam para o setor privado.

2) Dispor de mais horas de trabalho médico especializado.

Se repusesse o valor normal das horas extras, o SNS teria mais facilidade em contratar e fixar médicos e em contar com a sua disponibilidade para fazer mais horas extras. Ao contrário, querendo obrigar os médicos a fazer horas extras sem as pagar, leva-os a optar por outras soluções profissionais. Só este ano, nos primeiros cinco meses, já emigraram mais 175 médicos, a maioria já especialistas, como anestesistas, ortopedistas, cardiologistas, médicos de família, etc.

Saúda-se o facto do Ministério da Saúde ter resolvido um dos graves problemas herdados do anterior Governo, agilizando os concursos e a contratação de médicos pelo SNS. Mas não chega.

Sendo, agora, também uma questão de justiça, repor o pagamento das horas extras é um ato de boa gestão, pois permitirá poupar, melhorar a qualidade e resolver muitos dos problemas do SNS e dos doentes. Por isso se estranha a recusa... A agitação sindical é, por conseguinte, expectável e fundamentada.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG