Opinião

ULS. O rei vai nu!

Analisaram-se os dois únicos estudos disponíveis que avaliaram o modelo das Unidades Locais de Saúde (ULS). Pelo menos aqueles a que conseguimos aceder, o estudo da ERS sobre o desempenho das ULS e o estudo da IASIST sobre o desempenho clínico dos hospitais do SNS.

Recordemos que um dos principais objetivos que se pretendiam alcançar com o modelo ULS era o de melhorar a integração, alinhamento e comunicação entre os Cuidados Primários de Saúde e os Cuidados Hospitalares (CH) locais e, com isso, melhorar a capacidade assistencial e aumentar a eficiência.

Ora, podemos constatar que não há nenhuma evidência concreta que permita concluir que o modelo ULS tenha trazido qualquer vantagem relativamente ao modelo Hospitais/Centros Hospitalares e ACES, quer em termos financeiros quer em ganhos em saúde.

Verifica-se a existência de alguns indicadores que não confirmam essa alegada mais-valia comparativa das ULS: uma taxa de internamentos por ACSC (Ambulatory Care Sensitive Conditions), que se interpretam como hospitalizações desnecessárias, superior à registada nos hospitais não ULS; o rácio de urgências face ao número de consultas externas não apresenta qualquer redução ao contrário da restante rede SNS; um crescimento do número de consultas de urgência das ULS muito superior ao dos grupos hospitalares B e C, onde estas se inserem, etc.

Também em termos de eficiência, qualidade e desempenho económico-financeiro parece haver evidência de que o modelo organizativo em ULS não veio trazer valor acrescentado ao SNS.

Perante estes resultados, não podemos deixar de colocar algumas questões:

1 - Os dados disponíveis no Ministério da Saúde (MS) confirmam esta análise?

2 - Que análise o MS faz relativamente ao modelo ULS e com base em que dados técnicos?

3 - Na ausência de estudos que demonstrem um benefício claro e mensurável das ULS sobre as outras formas de organização dos cuidados hospitalares e cuidados de saúde primários, porque se continua a apostar no modelo ULS?

4 - O que tem falhado nas ULS para que não atinjam os objetivos teóricos que presidiram à sua implementação?

5 - Porque não há mais estudos sobre o modelo ULS disponíveis para análise pública? Se porventura existem, como podem ser consultados?

O modelo ULS parece ser mais uma "experiência inovadora" à portuguesa.

Alguém decide mudar o modelo de organização do SNS para "conseguir melhores resultados". Porém, depois não se avaliam e não se corrigem os erros e tudo continua igual ou semelhante, cumprindo aquela velha máxima "tudo deve mudar para que tudo continue na mesma", imortalizada por Giuseppe Tomasi di Lampedusa no romance "Il gattopardo".

Quem de direito que dê as devidas respostas. Mas se o espírito e a prática não mudarem efetivamente, começando pela meritocracia, este país não vai a lado nenhum.

BASTONÁRIO DA ORDEM DOS MÉDICOS

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