Opinião

A Europa do medo

A crise grega assumiu contornos de guerra fria. Nos últimos dias, testemunhámos uma insólita sequência de avanços e recuos entre duas posições extremadas que põem a nu as fragilidades do projeto europeu. A hegemonia vigente de alguns estados, das duas principais famílias políticas e das instituições credoras chegou ao ponto de subverter os fundamentos da democracia.

Goste-se ou não do Syriza, goste-se ou não da sua estratégia negocial, a verdade é que este é o Governo legítimo da Grécia, ao qual o povo conferiu um mandato. Os negociadores gregos vinham afirmando, reiteradamente, que não poderiam ultrapassar determinadas "linhas vermelhas". Ainda assim, foram cedendo até ao limite, altura em que, confrontados com a última proposta dos credores, decidiram devolver a palavra ao povo através de um referendo. O timing não será o mais favorável, mas este é um gesto legítimo do Syriza, tanto mais que as sondagens sugerem que uma maioria dos gregos pretende ficar no euro e na União Europeia.

Neste contexto, o que faz o Eurogrupo? Perante um pedido de extensão do programa de assistência por mais um mês, para que a democracia funcione no país, a resposta dos credores e dos parceiros europeus foi um rotundo "não". Na sequência, a senhora Lagarde, que não foi eleita por ninguém, faz saber que, após o dia 30, data em que expira o programa de assistência, a proposta dos credores já não é já válida, o que significaria que o referendo não serve para nada.

É este o ponto a que chegou a Europa. Tomada pelas famílias políticas dominantes, não está disposta a dar espaço a qualquer variante do estafado discurso oficial da austeridade, ditado pela ortodoxia alemã, e muito menos a qualquer novo protagonista, independentemente da sua legitimidade democrática. O cúmulo do cinismo cabe inteirinho à Espanha, que, tendo recusado de forma musculada um programa de austeridade, assume-se agora como uma feroz crítica da Grécia. Alguém deveria explicar ao senhor Rajoy que o Podemos se combate com boa governação e dentro de portas, ao invés de ajudar ao massacre de uma Grécia que, à custa dos planos de austeridade, já viu o seu PIB cair 25%, perdeu 200 mil funcionários públicos, tem 52% dos seus jovens sem emprego e viu 45% dos aposentados e 40% das crianças caírem abaixo da linha de pobreza.

A acontecer o referendo, é bem provável que o medo impere e que o "sim" vença. O "parêntesis" Syriza fechar-se-ia e um novo Governo mais bem comportado teria acesso a um mais simpático programa que, necessariamente, incluiria um perdão parcial da dívida. Veremos. Entretanto, o projeto europeu marca passo.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG