Opinião

AICEP e universidades

A Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) e o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) assinaram na última sexta-feira um protocolo de parceria que visa reforçar o papel do conhecimento na internacionalização do país. Se é certo que Ensino Superior público e tutela não atravessam o melhor período das suas relações, a verdade é que o Governo fez questão de dar um sinal muito forte de reconhecimento da importância das universidades ao mobilizar para a cerimónia nada menos do que o vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, que se fez acompanhar dos ministros Rui Machete, Poiares Maduro e Nuno Crato, para além de vários secretários de Estado.

A experiência de outras nações demonstra que a internacionalização do Ensino Superior é uma das mais eficazes formas de diplomacia dos tempos modernos. A circulação de talento e conhecimento tornou-se crítica no novo desenho das relações de poder, algo que se aplica a pequenas nações como a Finlândia ou a Suíça, mas também aos gigantes emergentes como a China e o Brasil. Portugal, apesar de ter sido um dos precursores da globalização, tem-se mantido inexplicavelmente distante deste processo, apesar dos esforços que algumas universidades vêm protagonizando de forma isolada.

É certo que uma grande parte dos professores e investigadores das universidades estão fortemente internacionalizados, por via da participação em projetos ou tão simplesmente pelo facto de pertencerem a uma geração em que era muito frequente estudar no estrangeiro durante o doutoramento. Mas o sistema universitário, nas suas diferentes missões, nunca equacionou o seu papel enquanto tributário de um processo de internacionalização do próprio país.

É assim que, na missão do ensino, o número de estudantes estrangeiros é ainda de apenas 0,7%, sendo que um quarto desses são brasileiros. O necessário estatuto do estudante estrangeiro, que permitirá contingentes e concursos específicos, revela-se um parto sempre adiado. Portugal tem condições excecionais para atrair estudantes talentosos, mas falta-lhe a estratégia.

Na investigação, a situação é bem diferente. Para além da necessidade de captar financiamento europeu, há uma razão de essência para a forte internacionalização: o conhecimento e a ciência não têm fronteiras. Assim, não é possível ser competitivo sem partilhar projetos com os pares de outros países, e isso para os académicos é uma realidade sem discussão.

Mas é na terceira missão da universidade, a valorização do conhecimento, que mais há a fazer. Não compete às universidades a exploração comercial do conhecimento, numa perspetiva de fabrico e transação de produtos junto de clientes finais. Para isso existem as empresas. Mas compete-lhe ser parte muito ativa na formulação de propostas de valor a partir dos avanços científicos ou culturais que protagoniza.

Não tendo fronteira, a ciência e muita da cultura devem necessariamente procurar "tomadores" no espaço internacional. Este é um tango que se dança a dois, com universidades e empresas em parceria. A AICEP, pelo conhecimento dos mercados e pela experiência acumulada, é um parceiro-chave neste exercício. Pode ajudar a colocar a oferta portuguesa no exterior, mas também contribuir para disseminar uma imagem mais moderna e mais tecnológica do país.

Escusado será dizer que a AICEP não é uma entidade desconhecida para as universidades. Eu próprio posso testemunhar o apoio da agência em projetos pontuais em que estive envolvido. Recordo, por exemplo, uma importante missão em Xangai para a colocação do projeto de mobilidade elétrica portuguesa ou uma outra em que coordenei uma delegação de empresários da área da construção ao Dubai, situações em que a disponibilidade e o profissionalismo dos colaboradores da AICEP me surpreenderam muito positivamente. Todavia, o que está agora em causa com o protocolo assinado na sexta-feira é o estabelecimento de uma parceria estratégica que deverá resultar numa ação sistemática, alargada e consequente em termos de expansão do potencial de internacionalização das universidades portuguesas.