O Jogo ao Vivo

Opinião

Ainda a sondagem

A última sondagem coloca a coligação PSD/CDS e o PS num empate técnico, algo que surpreende quem, no país real, vai sentindo revolta face à governação de Passos Coelho. Claro que é preciso atender às limitações metodológicas que uma sondagem sempre tem, mas importa também não subestimar que essa ponderação das intenções de voto vai formando tendências e, consequentemente, consolidando a opinião pública em torno de certas ideias. Como a de que não se conseguirá atingir uma maioria absoluta.

Sem prejuízo do efeito de questões marginais como o caso Sócrates, o Syriza ou a emigração (qual seria o resultado se os mais de 400 mil que emigraram votassem nos seus distritos?), inclino-me para elencar três ordens de razão para estes resultados.

A primeira é o medo dos portugueses. Aqui o mérito vai inteirinho para a coligação, que conseguiu vergar o povo português através da austeridade e de dois clichés ganhadores: a ideia da culpa, distribuída entre o PS de Sócrates e os portuguesinhos que exageraram nos apartamentos, nos carros e nas férias; e a narrativa do "pequeninos, mas sérios", que nos acomoda à ideia de europeus de segunda, com salários baixos, destinados às tarefas menores que ingleses, franceses e alemães recusam fazer. Assim, amedrontados e resignados, abdicamos da ambição e da autoestima e lá fazemos permanecer os mesmos políticos no Poder.

A segunda ordem de razão é a comunicação da coligação, coadjuvada por um presidente da República sempre solícito para colaborar, mesmo quando está no estrangeiro. Ouvir o primeiro-ministro garantir que não convidou à emigração, que não aumentou o IVA e que os cortes não afetaram os mais pobres encaixa numa impensável reengenharia da mensagem política. Parece, contudo, que a mentira compensa, pelo menos nas sondagens.

Por fim, a organização do PS, pouco eficaz na exploração das lacunas da governação e na apresentação das suas propostas. A elaboração do seu programa a partir de um cenário macroeconómico é, do ponto de vista técnico, credível e correta, e está nos antípodas da abordagem irresponsável e pouco séria de Passos Coelho em 2011. O problema é que é preciso traduzir essa tecnicidade para uma linguagem mais próxima do eleitor, para que não se caia em equívocos como o da redução temporária da TSU, dificilmente entendível pelo comum dos portugueses. Noutra linha, existem fragilidade em áreas da governação que escapam ao escrutínio do PS, de que é exemplo a nova ministra da Administração Interna cuja escolha para a pasta ninguém conseguiu perceber de tão errática que tem sido a sua atuação.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG