Opinião

Compromisso Serralves

Compromisso Serralves

Ir a Serralves é sempre um prazer. Pelos jardins, pelo museu, pela qualidade da coleção de arte contemporânea, pelas pessoas, enfim, não faltam boas razões. Mas participar num jantar de Fundadores por ocasião dos 25 anos de Fundação e dos 15 anos de Museu é especial. Assim foi na última sexta-feira, em que, num magnífico serão, se celebrou o reconhecimento dos Fundadores, se homenageou o seu primeiro presidente, João Marques Pinto, e por fim se realizou o jantar de angariação de fundos, em benefício da Fundação e do seu programa cultural.

Sentado ao meu lado, um dos fundadores e beneméritos, homem das empresas, explicava-me que não é já possível conceber o Porto sem Serralves ou sem a Casa da Música. Estas duas instituições, com o seu programa cultural, mudaram a paisagem social da cidade e catapultaram a Invicta para um estatuto de que a região e o país se podem orgulhar. Por muita população, economia e futebol que a cidade possa federar, sem esta dimensão simbólica e imaterial, da arte e da cultura, não passaria de uma mera urbe sem caráter. E no caso de Serralves é extraordinária a forma como a Fundação e o Museu se integraram no ADN do Porto, moldando a sua própria personalidade.

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O comprometimento da sociedade portuense e regional com Serralves esteve bem patente na sexta-feira com a presença de seiscentas pessoas, representando um extenso e variado mosaico institucional e empresarial disponível para contribuir para um projeto ímpar. Ao contrário de tantos que, em Portugal, vivem da subsidiodependência e adotam o registo do queixume sem muito fazerem pela sua própria sobrevivência, Serralves apresentou ao país uma proposta de valor irrecusável. E para que esta visão se tornasse realidade, convocou a sociedade para contribuir e, dessa forma, mostrou ao Estado que este é um projeto onde podem e devem ser aplicados também recursos públicos oriundos dos impostos de todos nós. A aliança virtuosa público-privada de Serralves tornou-se assim um caso de estudo. Em que projeto cultural se consegue, neste país, congregar governo, universidades, empresas públicas, empresas privadas, câmaras municipais, bancos, artistas e por aí fora?

No fim do dia, não deixa de ser relevante olhar para os números e esses são, de facto, impressionantes. O impacto económico de Serralves no PIB está avaliado em cerca de 40 milhões de euros. Criou neste primeiro ciclo de 25 anos perto de 1300 postos de trabalho, pagou mais de 20 milhões em remunerações e gerou quase 11 milhões de receitas fiscais. Grandes números.

Mas o que me fascina é o que Serralves fez com este dinheiro. Só em 2013, o número de visitantes ascendeu a 423 mil pessoas, das quais 85 mil estrangeiros. Este nível de exposição ao público estrangeiro, cada um dos quais embaixador do Museu e do Parque, junta-se a mais de 4500 notícias nos diferentes órgãos de Comunicação Social contribuindo para uma marca de excelência do país. Os números dos visitantes mostram, por outro lado, que Serralves não é só do Porto. É de toda a área metropolitana, é de Braga, Guimarães, Viana, Vila Real, Bragança... Uma infraestrutura destas é de todos nós.

Serralves entrou também na era digital, e em força. No ano passado, um milhão e meio de pessoas foram visitantes virtuais. É seguido por 150 mil fãs no Facebook, 7500 no Twitter e teve 148 mil visualizações no YouTube.

A joia da coroa é a magnífica coleção, que procura representar a história da arte contemporânea nacional e internacional desde a década de 1960. A importância deste espólio reside no facto de corresponder a um período em que emergiram novos paradigmas na criação artística, algo que ficou admiravelmente patente na exposição inaugural de 1999 "Circa 1968", onde se expuseram mais de 600 obras.

De todo o plano de atividades, o que mais me entusiasma são os programas dirigidos à população e às escolas. O "Serralves em Festa" atrai 90 mil pessoas, e quem lá vai quer voltar. Trata-se do maior festival de expressão artística contemporânea em Portugal e, seguramente um dos maiores ao nível internacional. Este ano foram 40 horas sem interrupção, ainda por cima com entrada gratuita. As visitas escolares, por seu lado, puseram no ano passado 81 mil jovens em contacto com a arte e a cultura.

Quando se fala de Serralves, fala-se de serviço público. Pago pela sociedade e também pelo Estado. Que ambos continuem comprometidos, porque é também assim que se faz o país que todos desejamos.

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