Opinião

A hora dos jornalistas

A hora dos jornalistas

A denominada pré-campanha para as legislativas é uma espécie de versão social do fenómeno da antimatéria. Sabe-se da física que o Big Bang gerou partículas e antipartículas, as quais interagem entre si num processo de destruição mútua que liberta energia. Aquilo a que assistimos na atualidade política nacional é um jogo de campanha e anticampanha disputado sobretudo nas redes sociais, que justamente parece fazer prevalecer um efeito de desmaterialização do objetivo de esclarecer os eleitores.

Longe vão os tempos em que o diálogo entre políticos e cidadãos se processava segundo códigos conhecidos e observáveis. No passado, com mais ou menos intriga, a mensagem era passada pelos canais tradicionais, o que significa que os "gatekeepers" sabiam onde se posicionar e como escrutinar. Este foi sempre o serviço por excelência dos jornalistas, razão pelo qual são, muito justamente, reconhecidos como guardiões de uma certa verdade, indispensável ao bom funcionamento de uma sociedade. Esta realidade, porém, mudou dramaticamente nos últimos dez anos. Hoje, os canais são mais complexos, os emissores das mensagens multiplicaram-se e têm a possibilidade de se travestirem. O que antes se identificava como fluxo adquiriu agora a forma de nuvem.

Neste novo mundo, que de resto já se anunciava há bons anos, os partidos da coligação PSD/CDS assumiram a liderança. Dominam, como nenhuma outra força política em Portugal, as redes sociais, que frequentemente convertem em plataformas de anticampanha, as tais que visam destruir a campanha, tal como nos sugere a física. O perdedor maior é o Partido Socialista, que, a cada tentativa para agendar o debate político que interessa aos portugueses, é de imediato manietado pela ativação da máquina dos partidos do Governo, que logo dispara os seus tweets, posts, SMS, MMS e outras munições no sentido de neutralizar o conteúdo e fazer derivar o foco para o acessório, o pitoresco, o polémico, enfim, o "fait-divers". Depois é dar um empurrãozinho e esperar que os "likes" e os "shares" façam o seu caminho. Lá pelas 20 horas de cada dia, os telejornais darão credibilidade à história. É certo que os próprios socialistas pouco têm ajudado o seu líder, numa espécie de ajuste de contas que, juízos de valor à parte, se joga no momento e no tempo errados. E assim vemos, por exemplo, que a cara que aparece nos cartazes se antecipa no alinhamento noticioso às propostas, às políticas e aos números do desemprego.

Dando como certo que estes são os novos contornos da comunicação, a pergunta legítima é a de sempre: quem modera tudo isto? Quem ajuda o cidadão comum a separar a campanha da anticampanha? Direi que é a hora dos jornalistas, como muito bem o fizeram em todo o século XX, se chegarem à frente e nos mostrarem que são, ainda e sempre, uma das nossas mais importantes salvaguardas.

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