Opinião

Costa à vista

O Partido Socialista está ao rubro. A crise desencadeada no rescaldo das últimas eleições para o Parlamento Europeu abriu todo um novo capítulo, algo que estava em incubação desde o verão quente de 2011 e que, três anos depois, acabou por explodir nas mãos de um líder que se achava seguro. Os números são inexoráveis. Na mesma Lisboa onde António Costa conquistou 52% dos votos nas autárquicas, o PS não foi além dos 32% nas europeias. Esta foi a faísca que faltava para acionar o desafio. A solução imposta por António José Seguro para a clarificação da liderança, apressada e a quente, antecipou um ano a campanha para as legislativas, colocando-se mesmo a questão de se saber se isso servirá os interesses dos socialistas.

A entrevista de António Costa ao "Expresso" deste fim de semana é um dos marcos desta disputa interna e terá, com certeza, a correspondente réplica por parte de Seguro. O autarca lisboeta apresentou-se frontal e com um sentido estratégico apurado. De uma assentada, explicou o que o separa do atual primeiro-ministro e elegeu aquele que, em sua opinião, deveria ser seu adversário no PSD: Rui Rio. Eis uma forma eficaz de fragilizar o atual presidente do PSD.

Ao afirmar que, embora desejando uma maioria absoluta, poderá governar em minoria, Costa faz uma leitura pragmática daquilo que o espera e que o país político precisa. Trata-se da capacidade de estabelecer compromissos com o que designa "uma grande maioria do contra". Recuando às eleições europeias, o autarca de Lisboa sintetiza a sua insatisfação lembrando que a uma derrota histórica da direita não correspondeu uma vitória histórica da esquerda. É neste espaço do voto contra dos portugueses, que rejeitam a direita e têm relutância na adesão à esquerda, que Costa espera conquistar a votação necessária para vencer e governar Portugal.

Pelo meio, tem umas primárias para disputar. Neste estatuto de candidato a candidato, o edil lisboeta sabe que tem uma via-sacra para percorrer. Ainda por cima, armadilhada. Na sua entrevista, não deixa passar em branco a recente polémica dos cadernos eleitorais socialistas de Braga e Coimbra, referindo que não ressuscitará mortos para ganhar uma eleição. A história dos militantes mortos, emigrados e acamados com quotas pagas não é de agora. Já nas autárquicas correram rumores que indiciavam a existência destas práticas. E a verdade é que não se compreende por que razão Seguro não ordena que se revelem, sem subterfúgios, os nomes daqueles que desembolsam tantas dezenas de milhares de euros para pagar quotas de terceiros. A menos que alinhe na explicação avançada pela sua apoiante, candidata à Distrital de Braga, que sugere que "pode ter sido uma homenagem aos mortos".

Aquele que é para mim o aspeto mais diferenciador da entrevista de António Costa é a demarcação da visão redutora que Pedro Passos Coelho tem para o país. Costa realça a sinceridade do primeiro-ministro, mas claramente não se revê nesta ideia de que Portugal não é capaz de ser mais do que um país pobrezinho. Ou, o que é o mesmo, um país de baixos salários, baixas pensões, elevados impostos e sem ideias próprias sobre o seu posicionamento internacional. Costa acredita que a economia resolverá o problema das finanças. E não o contrário, como o Governo e a troika nos quiseram fazer crer, com os resultados que se conhecem.

Ao eleger Rui Rio como o seu adversário, Costa mostra ambição e estratégia. Por um lado, aponta para o objetivo maior, que são as legislativas, despromovendo as primárias do PS. Depois, enfraquece Pedro Passos Coelho, criando-lhe desde já uma alternativa que, não sendo viável para 2015, não deixará de ser um líder sombra.

Os portugueses, desencantados com a política e com os políticos, anseiam por novas lideranças. Estão cansados dos protagonistas dos últimos anos. Pessoalmente, não acredito em alternativas de traço populista, daquelas que se aproveitam da descrença coletiva para armarem agendas pessoais, saltando para lá e para cá em busca do poiso público que maximize os seus interesses pessoais. Aquilo em que acredito é em mulheres e homens de Estado, com provas dadas, com visões modernas e ambiciosas para um Portugal pleno de potencial. António Costa aponta esse caminho.