Opinião

O exemplo inspirador da Finlândia

O exemplo inspirador da Finlândia

Muito foi dito e escrito sobre o guião da reforma do Estado apresentado na semana passada pelo vice-primeiro-ministro. Da forma ao conteúdo, foram mais as críticas que os aplausos. Há, contudo, um aspeto que é deveras perturbador, embora não seja exclusivo deste Governo ou deste ministro: a ausência de uma visão para o país e, por maioria de razão, a inexistência de um plano de navegação.

É notória a descrença que se instalou em Portugal. Os sistemáticos lamentos das pessoas, das empresas e das instituições indiciam que uma boa parte do país não acredita que será possível encontrar um rumo de futuro e, pior do que isso, que não existirá um papel para Portugal, seja na Europa ou no Mundo. Parece que nos tornámos numa espécie de país da quinta divisão, sem direito à ambição, que vive na presunção de que será paulatinamente vergado até à derrota final.

Hoje apetece-me fazer o papel do treinador que, quando tudo parece perdido, aproveita o intervalo do jogo para contar aos seus jogadores uma história de sucesso, daquelas que aconteceram mesmo e que fazem qualquer um sonhar. E o enunciado é simples porque, tal como os minutos do intervalo, também as linhas desta crónica são escassas: a situação é péssima, mas é ainda possível lutar pelo objetivo (missão) e regressar à boa navegação. Porquê? Porque já foi tentado e conseguido por alguém numa situação similar à nossa.

Falo de um exemplo de sucesso que é para mim inspirador e que deveria ser divulgado e estudado pelos portugueses. É o caso de uma nação com metade da nossa população, periférica, com um clima horrível, que há poucas décadas era pobre e dominada pela sombra de um vizinho gigante e intimidante, e que se tornou numa das mais bem sucedidas nações do Planeta: a Finlândia.

Há apenas 40 anos (mais ou menos a idade da nossa democracia), o então embaixador do Reino Unido na Finlândia, sir Bernard Ledwidge, referia-se ao país nestes termos (minha tradução): "poder-se-ia argumentar que, para alguém que não seja um finlandês, é um desastre passar três anos na Finlândia, como acabo de fazer. A Finlândia é plana, fria e distante dos grandes centros da vida europeia. A natureza não favoreceu a Finlândia, nem tão-pouco a arte. Até muito recentemente, os residentes da Finlândia eram camponeses, caçadores, pescadores e um pequeno grupo de governantes estrangeiros que gastou a maior parte do seu dinheiro noutro lugar. A rica história cultural da Europa deixou menos marcas na Finlândia do que em qualquer outro lugar no mundo ocidental, talvez com exceção da Islândia. A cozinha finlandesa merece uma punição extra para a sua pavorosa barbárie: apenas os cogumelos e a lagosta são dignos de menção".

Esta pequena Finlândia era assim por altura do nosso 25 de Abril. Pois bem, atentem no milagre conseguido em menos de 40 anos. De acordo com o CBI (Country Brand Index, 2012), a posição mundial da Finlândia é: 6.ª na qualidade de vida; 5.ª no sistema de valores; 9.ª no ambiente para negócios; 4.ª no sistema de educação; 5.ª no sistema de saúde; 6.ª no padrão de vida; 2.ª na consciência ambiental; 2.ª na estabilidade do sistema legal; 3.ª na tolerância; 10.ª na liberdade de expressão. Foi considerado o melhor país do Mundo em 2010 pela "Newsweek".

Nas águas calmas e confortáveis de todo este sucesso, o que faz a Finlândia? Descansa? Festeja? Esbanja? Não. Acaba de redefinir a sua Visão para 2030, num fantástico documento divulgado este ano pelo gabinete do seu primeiro-ministro. As linhas de orientação políticas são poucas, mas bem fundamentadas e com objetivos precisos, no quadro de um conceito de bem-estar através do crescimento sustentável. O Governo finlandês, através de um processo muito participado, pretende que em 2030 o país alcance: um ambiente atrativo para todos os tipos de empresas; uma nova aliança entre trabalho, aprendizagem e empreendedorismo; um caminho para o sucesso e o bem-estar assente na educação, no espírito comunitário e na participação; um setor público orientado para o apoio ao crescimento sustentável.

Ideias simples de quem esteve já próximo do inferno e que aprendeu que existe sempre caminho, desde que haja esperança. Também os portugueses souberam no passado que para avançar exigem-se posição, visão e rota. É altura de mostrar ao Mundo que somos, ainda e sempre, talentos da navegação.

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