Opinião

Utilis praxis, sed praxis

Utilis praxis, sed praxis

Dura praxis, sed praxis". A praxe é dura, mas é a praxe. É este o lema da praxe académica em muitas das nossas universidades. À semelhança dos incêndios florestais, o tema das praxes vai-se esfumando ao longo do ano, afastando-se assim da agenda noticiosa e do mapa de preocupações, até que, um dia, nos assalta de novo o quotidiano. Assim será amanhã, dia em que os caloiros afluirão às academias para efetivar a sua inscrição no curso que lhes tocou em sorte.

Sem o dramatismo de outros tempos em que a procura excedia a oferta, os candidatos ao Ensino Superior conhecem hoje a escola e o curso que farão parte da sua vida nos próximos anos. Entre esperança e incerteza, aprontam-se para enfrentar nos próximos dias o calvário da "papelada". Matrícula, inscrição, cartão de estudante, ação social, seguros, associação académica... As faces apreensivas, quase frágeis, dos novos recrutas contrastam com o sorriso sedento, quase ameaçador, dos veteranos.

E o primeiro choque surge inexorável quando, à saída do bem organizado corredor da burocracia, o caloiro vê a sua cara ser pintada, não fosse ele escapar entre os pingos da chuva, e sintoniza o ruído ameaçador da praxe. Gritos, ordens, palavrões, formaturas e exercícios pseudomilitares, enfim todo um folclore a que os veteranos, autointitulados doutores, convencionam chamar de praxe.

Na sua definição mais genérica, praxe é um conjunto de práticas que visam a integração de novos membros num grupo ou organização. A sua repetição deu origem a tradições, como é o caso das praxes desportivas, militares e académicas. Como muitos de nós, vivi as minhas experiências nesta matéria, seguramente a melhor forma de avaliar os respetivos méritos e deméritos. Gostei de ser praxado quando joguei futebol, onde não existiu hierarquia nem punição. Gostei de ser praxado quando servi como militar, onde existiu hierarquia mas ninguém me ofendeu. Não desgostei de ser praxado enquanto estudante, porque se tratou de algo inofensivo e limitado no tempo, embora inútil.

Neste quadro de referência pessoal, olho para a atual praxe académica com reservas, mas com uma atitude construtiva. Faço, desde já, uma declaração de interesse: recuso-me a estigmatizar os jovens estudantes. Pelo contrário, acredito neles, trabalho com eles, dialogo com eles e aposto neles.

Existe em Portugal um clima de relaxamento de princípios e atitudes, expresso nos frequentes maus exemplos oriundos de algumas supostas elites e instituições de referência. Não é assim de espantar que os jovens estudantes, a quem nos encarregámos com diligência de transmitir códigos de facilitismo, protagonizem episódios menos nobres. Não gosto dos sistemáticos palavrões que, de forma gratuita, os "doutores" da praxe distribuem. Mas não os acho mais graves que a vergonha, na palavra e no comportamento, dos "reality shows" televisivos, com direito a tratamento VIP nas revistas cor de rosa.

Pelo meu lado, os estudantes estão perdoados por definição. Mas não desresponsabilizados, porque, de facto, não gosto da praxe que vejo nos campi e nas ruas das nossas cidades. Assim, para não me ficar pela crítica sem mais, proponho uma abordagem distinta, assente em três ideias: manter a praxe, limitar no tempo a praxe e tematizar a praxe.

Se a praxe é importante na integração dos caloiros, então deve ser mantida e aceite por todos, situando-se dentro dos limites de urbanidade e respeito pelas opções e liberdades de cada um. Por outro lado, a atmosfera de paródia que atravessa quase todo o ano letivo, num espaço que é suposto ser de trabalho, exige a limitação temporal da praxe, jamais ultrapassando os primeiros dias de outubro. Por fim, a praxe poderia ser temática. Sem abdicar da criatividade, irreverência e espontaneidade características dos jovens, seria delicioso ver a prática de integração adotar em cada ano um desígnio reconhecido pela sociedade. Num tempo de crise, não seria de "praxar" os caloiros com um par de noites a distribuir comida pelos sem-abrigo? Ou a ajudar as crianças que têm de atravessar a rua congestionada à porta da escola? Ou mesmo a cortar a relva no campus?

É por tudo isto que ao demagógico "dura praxis, sed praxis", contraponho o criativo "utilis praxis, sed praxis".