Opinião

A União (?) Europeia em Ancara

A União (?) Europeia em Ancara

Revejo a cena. Ursula von der Leyen verificou que Erdogan e Charles Michel esgotavam a lotação dos sofás disponíveis e soltou um ruído gutural, que, para um tripeiro, não fez jus ao vernáculo que lhe ia na alma.

Erdogan, que abandonou a Convenção de Istambul para a Prevenção e Combate à Violência contra as Mulheres e a Violência Doméstica por arrogância pessoal e conveniência política, oferecia-se o prazer de mostrar a uma mulher poderosa o seu verdadeiro lugar. E a presidente da Comissão Europeia suportou o agravo em nome da "substância" da reunião.

Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, invocaria a mesma razão para a sua olímpica indiferença. Perante múltiplos reparos, a 8 de Abril soubemos que "ficara entristecido por sugerirem que ele não tinha ficado incomodado com a gaffe diplomática". A pressão aumentou. E a 10 já tinham surgido o remorso... e a insónia!; Michel não conseguia dormir desde o episódio e afiançava que agiria de forma diversa se fosse possível regressar ao passado.

Os líderes das diversas famílias políticas chamaram-no e a Ursula von der Leyen, preocupados com a imagem de uma União Europeia a falar a duas vozes. O Espírito Santo deve ter presidido à reunião, pois a 13 de Abril, uma semana volvida sobre os factos, Charles Michel teve uma epifania e pediu solenemente desculpa a Von der Leyen pela falta de reacção ao desplante diplomático dos turcos. Ansioso por uma alva consciência que lhe devolvesse o sono dos justos, acrescentou que pedia perdão a todas as mulheres que se tivessem sentido ofendidas.

A tardia consciência igualitária é mais do que justa, mas menos lata do que a necessária, todos os europeus saem prejudicados. Para além de uma assinalável grosseria - fui educado a não deixar uma senhora de pé, por mais démodé e patriarcal que pareça a alguns -, Michel permitiu que um ditador pusesse a nu fissuras entre instituições europeias ao nível do mero protocolo, tornando-se, ao mesmo tempo, cúmplice de uma atitude sexista, em teoria inimaginável à luz dos valores europeus. Convenhamos que não é um bom prenúncio para a discussão da "substância" das negociações.

Lembro o sorriso triste de meu Pai ao citar a frase de Chamberlain, regressado da cimeira em Munique com Hitler, Daladier e Mussolini em Setembro de 1938: "Paz para o nosso tempo". A Checoslováquia fora traída, em nome da política do apaziguamento. De nada valeu a cobardia, pelo contrário!, sugeriu aos nazis que atacar a Polónia só despertaria vagos protestos.

Não nos iludamos. A história ensina que as cedências aos ditadores só lhes aguça o apetite para maiores desplantes. E não falo dos diplomáticos...

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O autor escreve segundo a antiga ortografia

Psiquiatra

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