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Opinião

Aldeias urbanas

Li no "Expresso" o trabalho de Raquel Albuquerque e Paulo Buchinho sobre as "Cidades de 15 minutos", conceito defendido por Carlos Moreno, urbanista e professor na Sorbonne.

Diz ele que se os cidadãos tiverem ao alcance de pernas e bicicletas o local de trabalho, as escolas, as unidades de saúde, os supermercados, etc., a utilização de automóveis diminuirá e o tempo parecerá menos escasso.

Há iniciativas em curso por todo o Mundo, incluindo Porto e Lisboa. Filipe Moura, do Instituto Superior Técnico, aponta algumas dificuldades: o incentivo à compra de casa dos anos 90, a rigidez do mercado de arrendamento, que dificulta a mudança de casa para as zonas do trabalho e das escolas das crianças e a construção de escritórios fora das cidades, sem envolvimento comercial ou habitacional.

Para Jorge Macaísta Malheiros, professor no Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, a mudança de paradigma permitiria a criação de "aldeias nas cidades", o que levaria à "recuperação do sentido de vizinhança, comunidade e entreajuda". Mas avisa - seria preciso evitar acentuar as desigualdades existentes, as cidades já abrigam verdadeiras aldeias de ricos e pobres.

Intenções e reticências que interessam à Saúde Mental. Andrea Mechelli, do King"s College, no âmbito do World Economic Forum, escrevia em Fevereiro deste ano que a probabilidade de desenvolver um quadro depressivo é 20% maior nos citadinos (para a desordem ansiosa generalizada 21%). Os factores de risco apontados vão do acesso reduzido a espaços verdes e níveis altos de poluição e barulho até à solidão, a percepção da criminalidade, a sua taxa real e as desigualdades sociais. Reconhecendo a heterogeneidade urbana, as diferenças da resiliência individual e as oportunidades que as cidades proporcionam, é sublinhado que "os factores no meio urbano que aumentam o risco da doença mental não são aspectos intrínsecos ou inevitáveis da vida citadina". Ou seja: políticas transversais atenuam os seus efeitos.

Lionel March, escrevendo sobre Frank Lloyd Wright, dizia que para o famoso arquitecto a democracia não era tanto uma forma de governo, mas um modo de viver. Ámen! As "Cidades de 15 minutos" transformarão as metrópoles em colares de aldeias solidárias? Pura utopia, cometemos erros sem regresso. Mas nas "ilhas" de Anselmo Braamcamp, onde faltavam condições básicas para uma vida digna, obtive uma "licenciatura" em solidariedade e civismo. Aqueles tripeiros, com os apoios devidos, transformariam as suas "ilhas" em arquipélagos de cidadania plena. Não tenhamos dúvidas - erradicar a pobreza não é apenas uma obrigação ética, mas também um passo gigantesco para a melhoria da Saúde em geral e da Mental em particular.

*Psiquiatra

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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