Opinião

Barcelona, Londres e o futuro

Barcelona, Londres e o futuro

Em Maio de 2020, José Castro e Ana Isabel Silva escreviam um artigo intitulado "Medicina e urbanismo: um abraço necessário no pós-covid". Li, gostei e aprendi!, um bom truque para envelhecer melhor.

Amante de Barcelona, roubo ao texto a referência a Ildefons Cerdà, urbanista que em 1859 estudou as relações entre surtos de cólera e condições de alojamento na cidade. Chamava ele a atenção para a diferença entre a qualidade do ar respirada pelos pobres, que habitavam os últimos andares, e pelos desafogados, morando em rés-do-chão amplos e arejados.

Imaginemos esses catalães na Londres de 2020. Tropeçariam em artigo de Dezembro do "The Guardian", imagino murmúrio desalentado - "nós sabemos...". As pessoas que habitam casas sobrelotadas estiveram mais expostas ao vírus e menos capazes de tomarem medidas preventivas, a sobrelotação foi uma das principais razões para a razia verificada entre os mais pobres e os membros de minorias étnicas. (Um levantamento de 2019/20 verificou a existência em Inglaterra de 830 000 casas sobrelotadas, mais 200 000 do que dez anos antes. Será isto o progresso?)

As desigualdades sociais têm consequências catastróficas para a saúde pública, não se "limitam" a insultar qualquer consciência ética. Preocupado com a equitativa distribuição das vacinas, Frei Bento Domingues escreveu, com o habitual desassombro - "Não estamos condenados a sofrer a intoxicação legitimadora do crescimento das desigualdades criminosas". Condenados não estamos, mas sê-lo-emos, se as assimetrias permanecerem e fecharmos olhos, ouvidos e corações.

Retomemos a questão do Urbanismo e da Medicina. É um erro demonizar o ambiente urbano, que proporciona extraordinárias oportunidades aos mais diversos níveis. Mas precisamos de apoiar os que o planeiam de um modo mais saudável e justo, dos transportes aos espaços verdes, passando por habitação, cultura, poluição e acesso aos serviços.

Quanto à Medicina, é necessário que seja versada - e exigente! - no que toca às determinantes ambientais, sociais e políticas da Saúde, que implora estratégias concertadas. No crepúsculo do século XVIII, Johann Peter Frank escrevia: "Se o poder do Estado se associasse com os conhecimentos médicos, muitas doenças que afectam maciçamente os povos poderiam ser eliminadas com medidas preventivas por parte das autoridades". Duzentos anos depois, há soluções testadas com sucesso. Por+que esperamos para as tornar "epidémicas"?

P.S. Trump? Ele e uma certa América sobreviverão à posse de Biden. Ouçamo-lo, no seu vídeo "apaziguador": "E a todos os meus maravilhosos apoiantes, sei que estão desapontados, mas também quero que saibam que a nossa incrível viagem apenas começou". Claro como água. Ou ódio...

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*Psiquiatra

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