Opinião

Cinco dias

Segunda - Relatório da APAV sobre o primeiro confinamento: em seis semanas 589 ocorrências de violência doméstica mais 94 de outros abusos físicos, incluindo sexuais. Como sempre, as mulheres em larga maioria.

É sublinhado um denominador transversal: a dependência económica das vítimas. O povo diz "quem não tem dinheiro não tem vícios". É falso. Mas é verdadeiro que vítimas sem autonomia financeira quedam-se mais longe da saída de emergência.

Terça - Cai neve em Nova Iorque, já o cantavam os Amor Electro. E que mais acontece? Maria Campos (ZAP/Lusa) diz que Bill de Blasio, presidente da Câmara, admite que negros e latinos estão a ser vacinados em números muito inferiores aos de brancos e asiáticos. Uma das razões? Essas comunidades apresentam "um profundo problema de descrença e relutância". Pudera! A discriminação não começou na pandemia, o número relativo de encarceramentos e o tipo de abordagem policial são tristes exemplos.

Há outros. A Associação Americana de Psiquiatria emitiu em Janeiro um pedido oficial de desculpas pelo seu apoio ao racismo. Um facto referido é que os psiquiatras do fim do século XX, perante a mesma constelação de sintomas, brindavam muito mais os negros do que os brancos com um diagnóstico de consequências pesadas - esquizofrenia.

Quarta - Artigo no "La Vanguardia", "As mulheres chegam ao poder para o mudar". Tem sido indiscutível e exemplar o pragmatismo empático com que algumas líderes abordaram as múltiplas vertentes da pandemia. Talvez porque milhares de anos com o estatuto de cuidadoras "naturais" - ó palavra escorregadia! - deram às mulheres um conhecimento mais próximo do sofrimento e do tom necessário para mobilizar as pessoas.

Quinta - Um tribunal de Paris condenou o Estado francês por não cumprir promessas no que toca à emissão de gases e ignorar a crise climática. Histórico. Mudanças a caminho? Duvido, os poderosos privilegiam o lucro. E riem-se na cara das gerações futuras, como os chicos espertos das vacinas na nossa. Fiéis a divisa célebre - quem vier atrás, feche a porta.

Sexta - Um estudo da Universidade Nova de Lisboa sinaliza o "aumento das desigualdades no aproveitamento escolar, que vai afectar principalmente os alunos de famílias desfavorecidas". Um em cada quatro não conseguirá acompanhar as aulas à distância.

PUB

Pompeu dizia aos marinheiros: "navegar é preciso, viver não é preciso". Pessoa e Caetano recuperaram a frase em contextos diversos. O nosso é simples (?) - vamos precisar de navegar muito e bem para viver. Um mar de gente fá-lo-á em barcos a remos esburacados, sem ajudas os naufrágios serão mais do que os inevitáveis.

E os destroços, revoltados, saberão em que consciências dar à costa...

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Psiquiatra

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG