Opinião

Confinado

A ferrugem nunca dorme. (Neil Young)

Júlio Guilherme,

Escrevo por teres declarado os amigos fundamentais para suportar uma "resiliência fatigada". Duvido que tal sentimento seja contestado por alguém, quando nos preparamos para lamentar o primeiro aniversário da pandemia. Mas para mim foi (mais) um sinal de alarme.

Detestaria magoar-te; pariste-me e eu gosto da vida e do que faço. Nada me garante que o pudesse afirmar se há quarenta anos tivesses enveredado por análises clínicas ou radiologia, arrisco dizer que também não te arrependeste da escolha.

Levas a gentileza ao ponto de não me desligar quando acabam as consultas, habito o resto da tua vida como um irmão mais novo e não reduzido ao estatuto de deformação profissional, essa espécie de malformação adquirida que me obrigaria a silêncios frequentes e faria de ti um Quasímodo disfarçado.

Precisamente por viveres inteiro e sermos companheiros de todas as horas venho descortinando comportamentos inquietantes da tua parte. Reduziste o consumo de números pandémicos? Óptimo. Em contrapartida estás a trabalhar mais. Por razões duvidosas, será obrigatória - e prazenteira - a aceitação de tantos webinars? Não acredito, suspeito que temes o ócio, tão amado pelos Antigos que veneras.

Por já não conseguires filosofar? Não exageremos, nunca foi o teu forte! Mas vejo-te preenchê-lo com ecrãs órfãos de triagem assisada; adiar a bicicleta estática ou simples passeio pela urbanização com desculpas ridículas; cultivar tabuleiros em equilíbrio precário nos joelhos, em tristes paródias de uma refeição; refugiares-te na poesia por a ficção te obrigar a um vaivém entre parágrafos, lidos mas não digeridos; cúmulo dos cúmulos!, ignorar o riso das crianças e não abrir a janela quando aproveitam uma trégua na melancolia de São Pedro para inundarem o relvado. Lembras-te? Fazia-lo para lhes mirar o encanto e alucinar as tuas nos tempos em que abraços e beijos contagiavam todos, mas de ternura.

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Há egoísmo na minha preocupação? Sim. Se embruteces nos tempos livres - eu sei, o verbo é forte - essa apatia cobiçará a esfera do trabalho. Vamos deixar de escutar pessoas inteiras e apenas ouvir-lhes as palavras, antes de selar a "consulta" com uma receita apressada? Por cima do meu (simbólico) cadáver!

Dizia o velho Wilde que "viver é a coisa mais rara do Mundo. A maioria das pessoas apenas existe". Chega-te? A mim não. Repara - a chuva parou. Ei-las, as crianças, em chilreante e alegre revoada. Pede-lhes boleia, genica e uma pitada de esperança. São elas o futuro, por que raio teriam as andorinhas o monopólio de anunciar a Primavera?

*Psiquiatra

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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